RETIROS ESPIRITUAIS E VINHO
Por Onofre Varela
Vivemos um tempo em que os jovens têm cada vez mais dificuldade na progressão de uma vida profissional não lhes permitindo formar família, alugar casa ou adquirir habitação própria. No meu tempo de jovem os empregos abundavam e as casas para alugar nunca faltavam… comprar casa era coisa de ricos.
O evoluir da sociedade, contrariamente à ideia que a palavra “evolução” transmite, acabou por “desevoluir” colocando travão à progressão da vida dos jovens que procuram uma carreira profissional que lhes permita formar família, ter moradia própria e filhos.
A sociedade moderna trancou portas à vida dos jovens que vêem as suas vidas paradas, atadas, sem porta de saída por onde possam encontrar um horizonte promissor.
Esta impossibilidade de materializar a vida, leva muita gente a procurar algum conforto espiritual que lhes dê console e dulcifique os dias da vida que receberam por oferta no nascimento, mas que a política económica deste nosso “progresso civilizacional”, dificulta ou impede, armadilhando o futuro.
A vida económica dos jovens (e menos jovens) obriga a fugas deste quotidiano tão austero e, não raras vezes, os seus passos encaminham-se para a Igreja ou para salas de seitas ditas evangélicas, onde procuram refúgio espiritual que lhes permita enfrentar a impossibilidade de materializar a vida que ambicionam, acabando por encontrar algum consolo espiritual.
O nosso cérebro é um órgão espectacular, permitindo-nos encontrar consolo em qualquer forma de crença religiosa colocando a religião ao serviço do apaziguamento do espírito, entendendo a crença quase como um confidente a quem se conta tudo quanto nos apoquenta, como se fosse o despejar do “lixo que nos consome os dias”, num contentor sem fundo, sentindo-mo-nos mais leves depois de exorcizarmos o espírito em ambiente de missa.
Mas também há o outro lado… o lado de quem consegue emprego mas logo se encontra afogado num mar de exigências doentias de produtividade, conduzindo a depressões e a consultas psiquiátricas.
Nestes casos, a dificuldade de se conseguir emprego pode não existir; o problema é conseguir mantê-lo sem angústia nem desânimo. Nas farmácias consegue-se alívio para a depressão, mas não para a solução radical do problema.
Ultimamente tem havido muita procura de retiros em mosteiros, fazendo crescer um negócio quase impensável. Em vez de umas férias movimentadas em locais turísticos cheios de gente e apelos ao consumo, um mosteiro oferece silêncio, calma, recolhimento e paz, de acordo com as necessidades psicológicas de cada um.
Li sobre a experiência de um ateu que realizou vários retiros numa abadia em França, onde conseguiu despejar a cabeça de problemas do trabalho, e recarregar baterias para mais um ano de compromisso profissional na sua actividade de jornalista e técnico de vinhos.
No mosteiro conseguiu meditar, envolvido no silêncio agradável dos monges, não abrindo a boca todas as manhãs. Era como se estivesse num espaço fora do mundo, longe de qualquer um dos problemas que o mero acto de viver acaba por criar.
Costumo dizer que um serviço que nos é fornecido pelas religiões, e que contém extrema importância para a vida de todos nós, é o apoio dado à situação de luto, ajudando na superação da dor de perda quando nos morre um ente querido.
Agora também direi que o refúgio espiritual num local de fé ajuda a “desentupir” os canais que nos permitem viver com interesse. E também sublinha a minha ideia de que a Religião é como o vinho: pode transmitir calma e paz… mas, em demasia, embebeda!
OV
Perfil de Autor
Onofre Varela nasceu no Porto em 1944, estudou pintura e exerceu a atividade de desenhador gráfico em litografia e agências de publicidade, antes de abraçar a carreira de jornalista (na área do cartune), em 1970, no jornal O Primeiro de Janeiro. Colaborou com a RTP, desenhando em direto a informação meteorológica no programa Às Dez e animando espaços infantis. Foi caricaturista e ilustrador principal no Jornal de Notícias, onde também escreveu artigos de opinião, crónicas e entrevistas.
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CATEGORIES
Cristianismo -
DATE
16 de Maio, 2026 -
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