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Dia: 22 de Fevereiro, 2007

22 de Fevereiro, 2007 Helder Sanches

One Nation Under God (1)

A sociedade americana, mergulhada na sua multiplicidade cultural, não se consegue livrar do fascínio pelas mitologias modernas. Recentemente, uma sondagem efectuada pela Gallup, uma das mais conceituadas organizações em termos de estudo da opinião pública norte-americana, revela que, em igualdade de circunstâncias dos candidatos, o eleitorado americano teria como última opção um candidato assumidamente ateu!

Devo dizer que considero este tipo de sondagens, por si só, degradantes. Uma sociedade em que ainda fazem sentido este tipo de sondagens está, com certeza, ainda muito longe de atingir o pleno estágio de sociedade justa e demonstra uma fixação em valores fictícios de moralidade, no mínimo, doentios.

Não vejo na sondagem uma única hipótese onde encaixaria uma posição pessoal. Não me consigo imaginar a limitar o meu voto por qualquer das características a votação. Valores como integridade, seriedade, capacidade de liderança ou sentido de justiça são, assim, arremessados para fora da discussão como se de factores supérfluos se tratassem!

Já no ano passado, um estudo da Universidade do Minnesota revelava que os ateus seriam o grupo que menos confiança transmitia aos norte-americanos, isto apesar de representarem menos de 3% da população.

Neste estudo, uma vez mais, o factor da moralidade é apontado como decisivo para estes resultados. A ilusão de que numa sociedade ateísta se assistiria ao declínio da moralidade é vista pelos norte-americanos como um argumento válido! Isto só tem justificação numa sociedade intoxicada culturalmente pela religião.

Podem-se encontrar razões recentes na sociedade norte-americana para esta forte influência religiosa – os atentados do 11 de Setembro, o recurso escandaloso a Deus nos discursos de George W. Bush – mas, na verdade, enquanto a tolerância parece aumentar em relação a outras minorias, os ateus permanecem lá bem no fundo da lista de preferências.

Naturalmente, as reacções começam a surgir; Sam Harris, Richard Dawkins e Daniel C. Dennett são apenas as faces mais visíveis do que, espero, virá a ser um forte movimento cívico contra a fantasia, a mitologia, o misticismo e a ficção.

(Diário Ateísta/Penso, logo, Sou Ateu)

22 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Recordações de viagens (Crónica)

DAS ANDANÇAS pelo mundo, por gosto umas vezes e dever profissional, outras, perduram memórias que assomam e trazem sorrisos embaraçosos quando, em espaços públicos, me encontro só. Um jornal ou livro são adereços com que disfarço a insólita boa disposição que, de supetão, me assalta. Mas como ficar sisudo quando recordo o taxista de Montreal, no Canadá, que, após longa conversa, em francês, tomou conhecimento da minha origem, mudou de idioma e não mais o compreendi? Só percebi que era açoriano, de S. Miguel, e que ficou feliz e loquaz por transportar um compatriota.

E a estupefacção, em Budapeste, quando o guia contava a portugueses o milagre das rosas, obrado pela rainha Santa Isabel, tia-avó de outra Isabel, que nasceria em Aragão e repetiu em Coimbra, também já rainha, o milagre que igualmente lhe valeu a santidade na reedição taumaturga do truque de família?!

A Elisa, uma guia com chapéu exótico e sombrinha garrida para que o grupo a localizasse, era convicta na descrição dos milagres com que estupefazia turistas e no apelo para se genuflectirem em frente do altar-mor das igrejas visitadas. Da Elisa lembro o ar empolgado com que mostrava os tétricos esqueletos que o clero italiano guarda nas igrejas para estimular a fé e a generosidade dos crentes.

No museu de um templo, parecido com uma sala de anatomia, a Elisa debitava, perante um esplêndido esqueleto, os milagres que obrara o bem-aventurado proprietário, não restando dúvidas sobre o mérito do santo e o crédito celestial de que gozava. Foi um esqueleto pequenote, vários ossos avulsos após, que perturbou a visita. A Elisa desfiava ainda milagres do santo e, interpelada sobre aquele último esqueleto, respondeu que pertencera ao mesmo, quando era mais novo, enquanto, por entre risos que não lhe abalaram a convicção, esgotou os prodígios do canonizado que era o patrono e estrela daquela catedral.

Das dezenas de profissionais que me guiaram em visitas, a Elisa é a que mais recordo. Não era o entusiasmo que lhe apreciava – pagavam-lhe para isso –, era a convicção. Nem sequer o padre que garantia, perante o pasmo dos paroquianos, que S. João Baptista, depois de decapitado, ainda agarrou a cabeça e a beijou, nem esse, punha tamanho convencimento nos prodígios com que preservava a fé e a côngrua.

Em Marraquexe, alertado por algo estranho, levei a mão ao bolso e encontrei outra, que logo agarrei, presa a um marroquino. Gritei pela polícia, e o miúdo, resignado, não tentou fugir. Com olhos de fome e tristeza, sem contar com a minha mão nem com a eventual vigilância de Alá, que mandou o profeta Maomé, bruto e primário, decepar as mãos que roubam, levou o óbolo que pretendia. Quando se afastou, foi meu o alívio e dele a gratidão pelas moedas com que recompensei a fome e o atrevimento. Num congresso sobre doenças benignas da mama, em Rodes, após os discursos dos presidentes das Sociedades Grega e Europeia de Endocrinologia e do ministro da Saúde da Grécia, todos em inglês, levantou-se o patriarca, com garridas vestes talares, e fez, em grego, uma curta prédica que, após a estupefacção geral, terminou em apoteose. Foram frenéticas as palmas e ergueu-se o congresso. Não sei se foi o tema que o atraiu para o imprevisto discurso ou a tentação de fazer ouvir a voz da Igreja ortodoxa a quatro mil congressistas que ignoravam o idioma.

Num jantar de gala, em Monte Carlo, um criado foi inadvertidamente empurrado e vazou o conteúdo da travessa sobre uma elegante mulher, com o molho a penetrar o decote, a inutilizar o vestido e a queimar o corpo que merecia outros ardores e não carecia do acidente para atrair olhares. Levantou-se e deixou o salão cheia de dignidade e nódoas, enquanto o criado era substituído, perante o silêncio sepulcral de oitocentas pessoas.

Em Lubliana, um ratinho decerto melómano passeou pelo palco durante a execução de um trecho de Beethoven, sem desconcentrar os músicos. Agitou a audiência e só saiu de cena depois de partilhar os aplausos com o maestro e os menestréis.

Em Nice, um congressista isolou-se numa área vazia do auditório e adormeceu. Era propício o ambiente: a luz ténue, a temperatura morna e monótona a voz do orador. Teria sido pesado o almoço e a digestão revelou um roncopata furioso cujos decibéis interromperam por instantes a comunicação e expuseram o imprudente participante à execração geral. Acordou, como o moleiro a quem pára a mó, com o silêncio. E a conferência lá prosseguiu, a bem da ciência e da decência.

Jornal do Fundão/Diário Ateísta/Ponte Europa

22 de Fevereiro, 2007 Ricardo Alves

É hoje!

«Defendo que o conceito e factor civilizacional denominado Deus, não só não é intocável como é assunto a merecer a maior e a mais viva das discussões no sentido de espevitar consciências que, mesmo fechadas ao tema, sofrem indelevelmente, sem o saberem, dos males provocados pela exploração da ideia de Deus que a todos vitimiza.

É provável que a abordagem do fenómeno Deus possa ser efectuada de outra maneira. Eu preferi não ter medo das palavras e usá-las para transmitir, rigorosamente, o que penso. Não me preocupei com a escolha de termos «politicamente correctos» mas sim com a eleição das frases que me pareceu poderem transmitir, com a limpidez de pura água, a minha sensibilidade sobre o tema, sempre com a preocupação de não ofender os crentes, pois sei que de sensibilidades e água somos todos nós compostos!»

Será hoje às 18h30m, no 121 da Avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, o lançamento daquele que creio ser o primeiro livro especificamente sobre ateísmo publicado por um português nos últimos 40 anos. Vemo-nos lá!