Loading

Dia: 12 de Janeiro, 2007

12 de Janeiro, 2007 Palmira Silva

A campanha terrorista da Igreja católica


Imagens tiradas do Arrastão. Clique nas imagens para aumentar.

Ontem quando cheguei a casa tinha este lixo da Associação Acção Família plantado na minha caixa do correio. Um folheto de apelo ao voto no NÃO no referendo de 11 de Fevereiro próximo do mais primário, básico e imbecil que tive o desprazer de ler nos últimos tempos. Só faltava uma imagem do churrasco de fetos como o do folheto terrorista de há dois anos e meio para podermos apreciar em toda a sua glória ao que se resume o mentecapto argumentário da Igreja de Roma na sua campanha desesperada de manutenção de poder!

Acho interessante que uma organização que pela voz do bispo da Guarda ulula ser «indigno da maturidade política de um povo» que se vote SIM no referendo por ser «essa a orientação do seu partido ou do partido da sua preferência», apele desta forma desprezível ao voto de acordo com as orientações da Igreja! Será que consideram que em vez de uma democracia Portugal é uma teocracia em que o Direito e a política são determinados pela religião? Querem emular o Afeganistão dos talibans?

Que resquício da «objectividade» que tanto bramem ser necessária para discutir o tema se vislumbra neste folheto completamente imbecil? Será este tipo de anacronismos inaceitáveis numa sociedade moderna o que os pró-prisão consideram um debate sério? Será o recurso à irracionalidade, ao insulto dos que não aceitam as crenças dogmáticas da Igreja – apelidados de terroristas – e o apelo ao catolicismo mais jurássico um debate sério para a Igreja?

Que raio de argumentos «científicos» e «universais» são as lágrimas de um mito no nonagésimo aniversário da sua invenção?

Espero bem que Portugal e os portugueses, com a distribuição massiva deste folheto – já que o cerne da campanha do NÃO para além da religião parecem ser considerações económicas, gostaria de saber onde foram buscar o muito dinheiro necessário para um mailing destas dimensões -, percebam finalmente o que está em jogo neste referendo: a decisão sobre a sociedade que queremos seja a nossa, uma teocracia sob os auspícios de um estado estrangeiro, o Vaticano, ou um país moderno – necessariamente laico e pluralista- em que as concepções religiosas de cada um se remetem ao foro intímo e individual e não são impostas na letra da lei a todos!

Porque Portugal não é nem o Afeganistão nem a Nicarágua; porque uma democracia participativa moderna do século XXI necessita ter legislação afirmativa, leis positivas, o que significa que as pessoas possam optar sobre as suas convicções e decisões morais; porque a liberdade religiosa que Bento XVI exigiu na homilia de Ano Novo para os cristãos nos países em que estes são minoritários tem como contrapartida a liberdade religiosa dos não cristãos nos países em que o cristianismo é maioritário; porque uma Igreja que brame contra a perseguição e prisão dos que não aceitam as concepções religiosas islâmicas em teocracias muçulmanas não pode exigir a perseguição e prisão dos que não aceitam as concepções católicas nas democracias ocidentais, espero que as últimas sondagens sobre as intenções de voto no referendo se concretizem nas urnas.

Só nos países em vias de desenvolvimento ou sub-desenvolvidos encontramos teocracias e sociedades que não reconhecem a mulher como um ser humano de plenos direitos. A construção de um Portugal melhor passa pelo resultado do referendo: a vitória do SIM será igualmente a vitória do Portugal moderno!

tag

12 de Janeiro, 2007 jvasco

Agnosticismo: possível, mas difícil

«Todos somos agnósticos em relação a alguma coisa. E podemos ser agnósticos em relação a tudo. O que determina o agnosticismo é a confiança que exigimos para aceitar algo como verdadeiro. Como não há certezas, e como podemos exigir o nível de confiança que quisermos, não há nada que possa escapar ao agnosticismo.

Imaginem que temos resultados que indicam que o chocolate faz bem ao coração, com uma confiança de 80%, e que o tabaco faz mal aos pulmões, com uma confiança de 95%. Se decidirmos aceitar como verdadeiro apenas aquilo em que se tenha mais que 99% de confiança, somos agnósticos em relação a ambos. Se pomos a fasquia nos 90% aceitamos apenas os malefícios do tabaco, e se somos pouco exigentes podemos acreditar em ambas as proposições.

Mas é incoerente aceitar que o chocolate faz bem e permanecer agnóstico acerca dos malefícios do tabaco, pois isso só com duas fasquias diferentes. Mesmo sem valores concretos, isto é válido: não é coerente rejeitar uma hipótese mais bem fundamentada quando aceitamos uma com menos fundamento. Esse é o problema dos que são agnósticos em relação a deuses e coisas sobrenaturais.

A teoria da relatividade é talvez a teoria mais bem fundamentada que temos hoje. Não deve haver algo que se saiba com mais confiança que ser impossível levar uma laranja da Terra a Marte em menos de um minuto (contado na Terra). Mas podemos ser agnósticos em relação a um deus omnipotente que possa pegar numa laranja e leva-la para Marte a uma velocidade superior à da luz. Basta exigir ainda mais evidência que aquela que apoia a teoria da relatividade.

O problema é a micose. Temos muita confiança que o clotrimazol ajuda a curar infecções por fungos, mas muito menos confiança na sua eficácia que temos na teoria da relatividade. Um agnóstico coerente não pode aceitar o conselho do médico se rejeita as conclusões de Einstein. Uma escapatória comum é que um ser sobrenatural não está sujeito à teoria de Einstein, mas isto revela um mal entendido. A teoria da relatividade não obriga; descreve. E o que descreve é ser impossível acelerar laranjas para além da velocidade da luz, seja quem for que as empurre. Não há excepções para seres que se intitulem sobrenaturais, nem evidências que indiquem que um ser sobrenatural seja imune à relatividade. Nem resolve a micose. O agnóstico coerente terá que considerar como pelo menos igualmente provável um fungo sobrenatural escapar ao clotrimazol. Isto não permite que se rejeite a relatividade e se aceite os antibióticos com coerência.

Regra simples para avaliar a coerência de um agnóstico: observem-no por uns momentos. Se não se coçar, ou é incoerente ou teve muita sorte.»

——————————–[Ludwig Krippahl]