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Dia: 9 de Dezembro, 2006

9 de Dezembro, 2006 jvasco

O paradoxo do mal – II

A refutação mais simples da ideia que o mal é causado pelo livre arbítrio é lembrar os males que não o são.

Terramotos, tsunamis, cheias, além de grande parte das doenças que vão matando as pessoas.

A este argumento, muitos crentes respondem com a ideia de castigo. Muitas vezes a discussão não evolui a partir desse ponto – é frequente que a pessoa que os oiça dar tal resposta fique demasiado indignada para manter um tom frio e sério. Afinal, pode parecer monstruoso acreditar que as pessoas que morrem de cancro «mereciam-no», tal como outras doenças que envolvem muito mais sofrimento e dor. Pode parecer um tanto monstruoso considerar que quando milhares de pessoas numa determinada região do mundo morrem em cheias, tsunamis ou tremores de terra, estas o mereciam.
E quanto mais se pensa no sofrimento concreto que esses males infligem, mais mesquinhas, insensíveis e abjctas podem parecer tais considerações. Mais indignação tendem a provocar.

Mas indignação não é argumento.

É por isso que pretendo, ao invés de me indignar, responder com um contra-exemplo. Tomemos um feto, no útero de uma mãe, que tem uma doença. Ele nasce e, devido à sua doença, passa dois dias em sofrimento no hospital até que morre. Não é um exemplo impossível: já aconteceu, continuará a acontecer.
Em que medida é que este mal foi resultado da escolha de quem o sofreu?

Que livre arbítrio teve esta criança com dois dias de vida? Que liberdade é que Deus lhe terá dado? Deus, que alegadamente respeita a liberdade, respeitou a escolha desta criança, que era não sofrer, que era viver? Ou todas estas crianças escolhem morrer em sofrimento?
Deus teria criado um mundo em que o livre-arbítrio desta criança não foi respeitado, em que ela não teve liberdade, nem escolha, em relação ao que lhe aconteceu. E o mal não deixou de lhe acontecer.

Podemos entrever aqui o meu argumento, portanto. Notemos que, neste caso, a ausência de liberdade da criança foi, em si, um mal. Nós gostamos de ser livres e sofremos quando não o somos, então a ausência de liberdade é um mal.

Se um Deus for benevolente, ele apenas optaria por nos dar liberdade na medida em que o mal que dela resultasse fosse inferior ao mal que representa a ausência de liberdade. Assim sendo, com um Deus benevolente, o mundo seria necessariamente o melhor mundo possível. Qualquer mundo diferente (por exemplo um em que Deus interviesse mais, com a limitação à liberdade que cada intervenção implicasse) seria pior.

Notem que, sendo Deus omnipotente e omnisciente, ele poderia criar qualquer mundo concebível. Isto quer dizer que, para Deus ser benevolente, omnipotente e omnisciente, não poderá existir nenhum mundo concebível melhor que este – o que é notoriamente falso: basta conceber um mundo em que, apesar dos pecados do homem, o bebé do exemplo não morreu ao fim de 2 dias.

9 de Dezembro, 2006 Palmira Silva

8 de Dezembro – III

«Portanto[…]os Bispos, que são os sucessores dos Apóstolos, pertencem à ordem hierárquica[…]estabelecida pelo Espírito Santo para governar a Igreja de Deus (At 20, 28)[…]Ensina ademais[…]na ordenação dos Bispos e sacerdotes[…]não se requer o consentimento do povo nem de qualquer poder ou magistrado secular.

Se alguém disser que na Igreja Católica não há hierarquia eclesiástica estabelecida por ordem de Deus, que se compõe de Bispos, presbíteros e ministros, seja excomungado». Concílio Ecuménico de Trento. Sessão XXIII

A oposição ao conceito de uma igreja centralizada sob a autoridade papal recebeu o nome de «galicanismo», por se ter manifestado com mais vigor em França. De facto, o rei, que até aí nomeava os bispos, opôs-se veeementemente à aplicação em território francês da reforma estabelecida pelo Concílio de Trento e apenas em 1615 os decretos de Trento foram promulgados neste país.

Durante os séculos XVII e XVIII, a intromissão da Igreja em assuntos seculares, a norma até a Reforma em que a Igreja ditava as leis – e recebia boa parte das receitas – em toda a Europa, conheceu uma crescente oposição por parte dos governos europeus que procuravam afirmar a plena soberania sobre os seus territórios.

Dentro da própria Igreja muitos dignitários afirmavam-se galicanos, isto é, acreditavam que a autoridade eclesiástica residia nos bispos, e não no papa. Por outro lado, os defensores da autoridade suprema dos papas, os «ultramontanistas» ou «ultramontanos», que afirmavam estar toda a autoridade da Igreja «além montanhas» (os Alpes), não aceitavam a reinvidicação do episcopado em participar na direcção da Igreja declarando o papa monarca absoluto da Igreja.

O galicanismo foi retomado mais tarde pela Revolução Francesa e, depois, pela monarquia francesa restaurada, tornando-se no século XIX o modelo seguido por grande parte dos Estados onde a maioria da população era católica.

Na realidade, até hoje o termo «jacobino» reflecte o golpe devastador contra o poder do papado desferido em 1789 pela Revolução Francesa. Não apenas pelo que se passou em França – onde desde os primórdios houve, no país anteriormente considerado por muitos papas como o «filho predilecto da Igreja», um profundo conflito entre a Igreja e o ideal republicano da revolução – mas essencialmente porque propagou os ideais iluministas a todo o mundo ocidental.

Só para dar um exemplo do poder da Igreja em França antes da Revolução Francesa, em 1766 um jovem de 19 anos, Jean François de Le Fabvre, o Cavaleiro de la Barre, passa «a vinte passos duma procissão, sem tirar o chapéu». É preso e torturado. É condenado por sacrilégio e decapitado depois de lhe terem cortado a língua. Finalmente o seu corpo é queimado junto com um exemplar do Dicionário Filosófico de Voltaire, numa orgia de fé participada por uma multidão entusiasmada.

Os ideais iluministas assentes na «Liberdade, Igualdade e Fraternidade» (Liberté, Egalité, Fraternité) entravam necessariamente em conflito total com este poder da Igreja, para além de recusarem os muitos privilégios do clero ou Primeiro Estado. Uma das primeiras medidas revolucionárias, violentamente contestada por Roma, numa França em profunda crise económica, foi a supressão do pagamento do dizimo à Igreja e a confiscação de alguns dos seus bens.

Mas o golpe final no poder de Roma foi desferido pela aprovação, em Agosto de 1790, da Constituição Civil do Clero, que separava a Igreja e Estado e, considerando que a Igreja era sustentada pelo Estado, determinava que os clérigos lhe deviam obediência. Determinava assim que os clérigos deveriam jurar a nova Constituição – os que o fizeram ficaram conhecidos como juramentados; os que se recusaram passaram a ser chamados de refractários – para além de retirar a Roma o poder de ordenação de bispos e padres de paróquia que seriam eleitos pelos membros das congregações respectivas.

Claro que o Vaticano não aceitou perder o poder quasi absoluto que anteriormente detinha em França e acirrou os refractários ultramontanos a combater os «hereges». A luta entre a Igreja Católica e a Revolução Francesa e os seus partidários culminou no levantamento dos camponeses católicos na Vendeia, no oeste da França, entre 1791 e 1793 e numa selvagem luta de extermínio entre os habitantes da Vendeia e os jacobinos, luta que depois se estendeu a mais pontos de França na guerrilha camponesa dos Chouans – a Chouannerie, da qual participaram o clero refractário e a aristocracia.

(continua)