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Dia: 20 de Novembro, 2006

20 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

A CEP ensandeceu

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) comporta-se, sob a presidência do arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, como a sucursal do ministério romano da Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício.

A CEP começou por negar à Assembleia da República o direito de legislar sobre o aborto e acabou a designar a procriação medicamente assistida – quando os espermatozóides ou os óvulos utilizados no processo não forem do próprio casal – «infidelidade consentida».

Os bispos, reprodutores absentistas, não são peritos em questões de reprodução e andam a ler anúncios pornográficos. Julgam que os espermatozóides viajam no pénis do dador até ao óvulo da receptora ou que a produtora do óvulo o deixa extrair, às escuras, por um falo desconhecido a fazer de aspirador.

Os bispos podem fazer greve à reprodução e obrigar os úteros das freiras à inactividade, não têm o direito de ofender quem procura um filho a quem transmitir o amor que sente.

Não sei se a alma viaja nos órgãos reprodutores do homem e da mulher mas, para quem odeia o sexo, devia ser mais sedutor o tubo de ensaio do que os fluidos pecaminosos que acompanham a concepção.

Não admira o despautério do bando da mitra e do báculo. Reuniram em Fátima, um local de embuste, e foram embrutecidos para julgarem a virgindade a maior virtude da mulher.

Se estes homens não escondessem, sob a sotaina, os recalcamentos que os perturbam!

20 de Novembro, 2006 jvasco

Debate sobre as atitudes religiosas dos Portugueses

O debate do passado dia 17 foi muito bom, e agradeço aos organizadores, especialmente à Filomena Carvalho, pelo amável convite, e ao meu irmão por ter sugerido a minha presença. Moderado por Fernando Catroga, participaram António Rego pela Igreja Católica, Mário Mota Marques pela comunidade Baháï, Jónatas Figueiredo pela comunidade Evangélica, e Mahomed Abed pela comunidade Muçulmana. Eu estava no panfleto como representante da «comunidade céptica», mas fiz questão de deixar claro que não representava uma comunidade, mas sim uma ideia: a ideia de viver sem religião. A descrença.

Comecei por esclarecer que descrença não é acreditar no contrário. Isso é apenas uma crença diferente. A descrença é perguntar em vez de afirmar, principalmente perguntar como é que o crente sabe que a sua crença é verdadeira. Como é que sabe que Maria era virgem? Que Jesus ressuscitou? Que Mahomed era mesmo um profeta? Estas perguntas incomodam os crentes, mas são perfeitamente legítimas.

E podemos ver o que acontece sem estas perguntas. As crenças religiosas apresentadas são fruto de um longo processo de aplicar a crença para obter respostas. Todas as religiões têm respostas, e todas têm a certeza absoluta que têm as respostas certas. Mas têm respostas diferentes. Parece que o método da crença não é o melhor. Principalmente porque a certeza absoluta dificulta o dialogo com os que têm a certeza absoluta do contrário, como podemos ver em muitas partes do mundo (nem sempre com crenças religiosas, mas sempre com certezas absolutas).

Por isso propus o método da dúvida, da questão, da descrença. Não dá recompensas, nem nesta vida nem na próxima, nem dá castigos para quem discorda. Não dá a verdade absoluta nem uma ligação directa ao criador. Mas dá a possibilidade de corrigirmos os nossos erros, e abertura ao dialogo com quem tem outras posições. Não tive oportunidade de o dizer no debate, mas acho que isso é melhor que qualquer deus ou verdade absoluta.

Da assistência veio a inevitável pergunta: sendo céptico, como posso evitar cair no relativismo moral? Como posso encontrar valores? Já estava à espera desta. Por sorte, imediatamente antes outro membro da assistência tinha comentado que todas estas religiões tinham em comum a prática do bem, o que me facilitou a vida. Se reconhecemos algum bem em todas é porque já temos uma noção de bem que é independente da religião. E crente ou descrente, o ponto final de qualquer juízo moral é sempre cada um de nós. Mesmo que um deus nos venha bater à porta a dizer o que é bom ou mau temos que decidir se concordamos ou não. O fundamental é sermos capazes de julgar as crenças e a fé de acordo com os nossos princípios morais, e não deixar que a fé dite o que para nós é certo ou errado. Esse é o caminho do fundamentalismo, e a razão para os extremismos em todas as crenças (não só as religiosas).

No final do debate o moderador lançou uma boa pergunta: há verdade na religião? Mais especificamente, se todas as religiões são verdadeiras, se só uma é verdadeira e as outras falsas, se todas são falsas, ou se há uma mais verdadeira que outras. Os outros participantes deram a resposta previsível: todas as religiões têm alguma verdade, mas há uma que é mais verdadeira. Claro que não houve consenso quanto àquela que supostamente é mais verdadeira.

Eu respondi que verdade não é aquilo em que acreditamos, mas aquilo que resiste à dúvida; para saber se as religiões são falsas ou verdadeiras temos que duvidar delas e ver o que aguenta. A audiência riu-se, mas acho que alguns ficaram a pensar. No fundo, era só isso que eu queria.

——————————–[Ludwig Krippahl]

20 de Novembro, 2006 fburnay

Teologia e Ciência

Francisco Sarsfield Cabral (FSC) fez dia 18, no Diário de Notícias, uma série de considerações sobre Ciência e Fé com as quais eu discordo profundamente.
O discurso de FSC é um discurso recorrente sobre a inexistência de incompatibilidade entre a Fé e a Ciência. Neste tipo de argumentação surgem vários canones da argumentação apologética que seria interessante enumerar. Antes disso, convém fazer alguns comentários sobre as citações que FSC apresenta.

Disse FSC que o papa havia dito esta semana que «o Cristianismo não implica um conflito inevitável entre a fé sobrenatural e o progresso científico».
A mitologia grega não implica um conflito inevitável entre a fé sobrenatural e o progresso científico. Hoje em dia ninguém se preocupa em tentar saber se os cavalos alados podem surgir da mistura entre água marinha e o sangue de mulheres com serpentes em vez de cabelo.

Os mitos tupi-guarani não implicam um conflito inevitável entre a fé sobrenatural e o progresso científico. Ninguém espera que um dia a comunidade científica se retracte e diga «afinal estávamos enganados. O Universo foi mesmo criado por Tupã, o deus-trovão, começando numa pequena região do Paraguai».

Nenhuma mitologia, de facto, cria qualquer tipo de conflito. Mitologias são histórias inventadas. O que cria o conflito é o crédito que se dá a algumas mitologias ou parte delas. É a fé que cria esse conflito.

Existem pessoas dedicadas a estudar o mundo natural. Essas pessoas recorrem à Ciência para conhecer melhor o mundo. A Ciência é a melhor ferramenta de que dispomos para estudar o Universo. Pelo outro lado, não há ninguém no mundo a quem possamos referir-nos como um “especialista no sobrenatural”. Nem o Dalai Lama nem o papa são melhores especialistas no sobrenatural do que Hesíodo ou Tolkien. A diferença entre um mitólogo e um crente é que o crente acha mesmo que a sua crença é real.

Portanto o real não tem qualquer tipo de conflito com o imaginário. O conflito surge quando alguém argumenta que uma fracção do seu imaginário faz parte do mundo real. Isso faz toda a diferença. É que então entramos na área da Ciência.
Os cientistas são assim acusados de recusar Deus nas suas teorias e de fundamentalismo por se fecharem a essa hipótese. Mas o que dizer do oposto? Que dizer dos que querem ver Deus nas teorias científicas e que se recusam a vê-lo sair? Não estarão esses os culpados do conflito? Porque alguns deles dizem que o conceito cristão de criação não está no plano científico. Porque se recusam então a aceitar que Deus não faça parte do plano científico?

No caso da origem e evolução do Universo, as exigências dos católicos não são inocentes. Dizer que Deus está por detrás da criação do Universo pode ser uma tese inocente do ponto de vista de um panteísta – é de facto algo irrelevante cientificamente. Por outro lado, afirmar que esse Deus é inteligente e que criou o mundo com um objectivo é algo completamente diferente.

É como querer dar uma colher de óleo de fígado de bacalhau a uma criança e para isso tentar diluí-la em água – não mistura. Se tentarmos emulsioná-la, continua a saber mal. Há então que diluí-la várias vezes até o sabor a óleo de fígado de bacalhau se perder quase por completo. E depois afirmar que conseguimos dar uma valente colherada ao miúdo.

Assim querem os teólogos forçar o divino na Ciência. Dizem que Ciência e Fé não estão em conflito. Secularizam o divino até se perder o sabor a Génesis na tentativa de ver um dia os cientistas admitirem uma coisa chamada Deus. E para depois alardoarem que afinal, o Universo é uma criação divina – não hindu, nem tupi-guarani, mas cristã.