Loading

Dia: 6 de Outubro, 2006

6 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Laicidade radical e outras falácias – II

Para além de uma cedência inadmíssivel às pretensões do terrorismo islâmico, se estas de facto se devessem ao que pretendem os que querem combater o fundamentalismo islâmico com o católico, «a exclusão de Deus» que constitui «um ataque às convicções mais íntimas» dos terroristas em nome de Deus, o que advogam os católicos mais fanáticos, para além de corresponder ao desmoronamento da sociedade tolerante que construímos, não só não resolveria o problema que o terrorismo em nome de Allah constitui como apenas conduziria a uma escalada da violência e a uma nova «cruzada».

Como o confirma, por exemplo, o facto de o número 2 da Al-Qaeda, o egípcio Ayman al-Zawahri, para além de chamar fracassado e mentiroso a George W. Bush, ter designado por charlatão o auto intitulado representante do Deus católico, numa mensagem de vídeo divulgada a semana passada no site da rede de televisão Al-Jazeera. O líder terrorista mencionou Bento XVI afirmando «Esse charlatão acusou o Islão de ser incompatível com a racionalidade, enquanto esquece que a sua própria cristandade é inaceitável para uma mente sensível».

A única forma de combater o terrorismo religioso e simultaneamente defender a nossa sociedade é a defesa intransigente dos valores em que esta foi fundada, primordiais entre estes a laicidade e a liberdade de expressão!

Aproveitar a ameaça que o terrorismo islâmico constitui – e uma simples inspecção aos nossos arquivos confirma termos denunciado desde sempre o fundamentalismo religioso, seja de que confissão for, como a pior ameaça à humanidade na actualidade – para verberar, como um dos apologetas profissionais de serviço ao nosso espaço de debate o faz, que a laicidade e os laicistas são os «maiores amigos» do terrorismo islâmico e que «o verdadeiro inimigo dos terroristas é o Papa Bento XVI», apenas confirma a minha análise da palestra de Regensburg: que esta foi cuidadosamente estudada para que Bernardos sortidos espalhados pelo Ocidente fizessem a apologia de Bento XVI e do catolicismo como bastião da defesa contra o fundamentalismo islâmico e simultaneamente atacassem a laicidade e os valores civilizacionais que pretendem falaciosamente defender!

De facto, afirmar que passa pelo fundamentalismo católico a defesa do nosso modelo de sociedade, isto é, dos seus valores civilizacionais – declarados contra a Igreja católica, que sempre os combateu e os denominou de «loucura e erro» – é rejeitar esses valores e corresponde a uma regressão para uma sociedade análoga à que os fundamentalistas islâmicos querem impor (ou já impuseram) nos respectivos países.

Ao embarcarmos nas falácias preparadas pelos fundamentalistas católicos, que se desdobram em ataques constantes à laicidade e à liberdade de expressão – lendo os textos dos escribas de serviço aparentemente apenas o Papa e os católicos podem usufruir dessa liberdade para criticar outras posturas face à religião, principalmente o islamismo e o ateísmo – não estamos a defender a nossa sociedade: estamos a atacar as bases em que ela foi construída!

Não há qualquer diferença em género que não em espécie entre sociedades integristas em que a religião, qualquer, determina todos os aspectos do quotidiano. A ameaça que constitui o terrorismo islâmico deve-se ao fundamentalismo religioso em que se baseia não ao facto de a religião em causa ser a islâmica. Qualquer fundamentalismo religioso constitui uma ameaça aos nossos valores civilizacionais, que não distinguem cor nem credo.

É extremamente preocupante que há pouco menos de um mês, sem fanfarras nem grandes anúncios públicos, a Assembleia Geral das Nações Unidas tenha aprovado uma moção genérica de combate ao terrorismo global, em que se inclui uma frase defendendo a tomada de medidas contra «a difamação das religiões». Isto é, exortando os estados membro à criação de leis punindo a «blasfémia».

Esta medida, a ir para a frente, indica apenas que o terrorismo global teve a sua primeira grande vitória: a derrota dos valores civilizacionais em que assentam as nossas sociedades democráticas e simultaneamente a derrota de uma declaração que a ONU proclamou faz 58 anos no próximo dia 12, principalmente dos seus artigos 18, 19 e 28.

6 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Da laicidade radical e outras falácias

O ateísmo, normalmente reduzido ao seu significado etimológico, isto é, a negação de Deus (ou deuses), na realidade é a posição filosófica herdeira da filosofia grega, que correspondeu ao abandono das explicações religiosas até então vigentes e em que se procurou, através da razão e da observação, um novo sentido para o universo.

Uma das escolas filosóficas mais antigas, associada ao atomismo, nomeadamente como foi desenvolvido por Epicurus, o primeiro ateísta de que há registo histórico, assentava na existência exclusiva de causas naturais para todos os aspectos da natureza. O ateísmo, se quisermos, corresponde à evolução desta escola filosófica na medida em que os ateístas não sentem qualquer necessidade do sobrenatural, isto é, o Universo é simplesmente aquilo que vemos, é a única realidade existente e nós somos apenas um infíma consequência de processos naturais casuísticos. Assim, o significado da nossa vida é o que fazemos dela e não há qualquer causa última quer para nós quer para o Universo.

Em resumo, para os ateístas a mera concepção de um qualquer ser transcendente ou sobrenatural é, para além de desnecessária, absurda, e toda a «ligação» para além da física, a metafísica que muitos confundem com sobrenaturalidade, se reduz à sua definição por William James, «apenas um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza», isto é, sem arbitrariedade nem dogmatismo.

Todas as religiões, especialmente as do livro, são anti-ateísmo e todas elas, na sua história mais ou menos recente, perseguiram e assassinaram todos os que se atreviam a pôr em causa os dislates em que assentam. Todas elas, com excepção do judaísmo, consideram ser obrigação dos crentes espalhar a fé e combater o ateísmo. No entanto, muitos crentes, os mais fanáticos em especial, ululam estridentes acusações de anti-religiosidade em relação a todos os ateus que se atrevem a afirmar publicamente as suas convicções filosóficas.

E enquanto um crente que combata o ateísmo é designado como convicto ou coerente com a doutrina respectiva, um ateu que simplesmente se atreva a manifestar, num espaço que tem o nome Diário Ateísta, as suas convicções filosóficas ou a sua coerência humanista é imediatamente rotulado de ateísta radical ou fundamentalista.

Ou seja, por uma qualquer razão obscura, esses crentes, que não foram permeados pelo pluralismo nem respeitam de facto os valores civilizacionais em que assenta a nossa sociedade democrática, consideram ser apenas o que chamam «convicção» religiosa o que é na realidade fundamentalismo, porque passa pela defesa de um conjunto de princípios, de natureza religiosa tradicionais e ortodoxos, a que chamam «valores radicados na natureza mesma do ser humano», tidos por verdades fundamentais e indispensáveis à consciência colectiva dos Estados em que se inserem, nomeadamente consideram ser dever dos Estados impor esses «valores morais universais e absolutos» na letra da lei.

E chamam «fanáticos» ou «fundamentalistas» ateus aos que se opõem a essa «legítima» imposição a todos dos dislates religiosos respectivos e denunciam as manobras nesse sentido.

Mais interessante ainda é o oxímoro com que mimoseiam os que se opõem a que o Estado seja utilizado na evangelização da sociedade: laicistas radicais!

Tal como não podem existir graus nem adjectivação da democracia, ou há democracia ou não há, também ou existe laicidade ou de facto não há separação Estado-Igreja. Quando quem detém o poder político legitimamente sufragado perpetua ou prolonga esse poder – vide o que está a acontecer na Venezuela em que Hugo Chavez prepara a perpetuação da sua presidência – mata a democracia; de igual forma, quando o Estado deixa a Igreja, que aproveita a mínima oportunidade para tal, imiscuir-se no espaço público (em que este público se refere ao espaço sobre a tutela do Estado) deixa de existir laicidade – contra a qual verberam todas as religiões nos países em que são maioritárias e que exigem veemente e estridentemente naqueles em que são minoritárias.

Nas sociedades ocidentais os sucessivos embates entre a ciência e a religião iniciados na Renascença, exactamente com a redescoberta do trabalho do ateísta Epicurus na forma do poema de Titus Lucrecius Carus De rerum Natura, continuados nos combates políticos ao poder da Igreja, proporcionaram a sociedade tolerante, democrática e assente em valores humanistas que é a nossa. Sociedade que é incompatível com o fundamentalismo religioso. Qualquer que este seja, islâmico ou cristão!

(continua)