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Dia: 18 de Junho, 2006

18 de Junho, 2006 fburnay

Imagens da História

Depois das reacções assoberbadamente fundamentalistas ao romance comercial de Dan Brown e de algumas manifestações de religiosos contra peças de teatro (será que as palavras ‘romance’ e ‘teatro’ já não vêm no dicionário?), aqui fica uma pequena amostra do infame constrangimento que durante séculos foi aplicado por Roma à Europa, e que ainda há quem ouse defender, em pleno século XXI: a censura. Neste caso o imprimatur do livro de Galileu, “Sidereus Nuncius”, publicado em 1610 e dedicado a Cosimo II de Medici, em que divulga algumas das descobertas feitas com a sua luneta.

«Os Excelentíssimos Senhores Cabeças do Concelho dos Dez, que abaixo assinam, tendo recebido certificação dos Reformadores da Universidade de Pádua por notificação dos Senhores encarregues desta questão, ou seja, do Mui Reverendo Inquisidor-Mor e do circunspecto Secretário do Senado, Giovanni Maraviglia, sob juramento, que no livro intitulado SIDEREUS NUNCIUS etc. de Galileu Galilei não há nada contrário à Santa Fé Católica, aos Princípios ou bons costumes, e que é digno de ser impresso, dão-lhe licença para que possa ser impresso nesta Cidade.

Escrito no primeiro dia de Março 1610

M.Ant. Valaresso
Nicolo Bon                                à Cabeça do Concelho dos Dez
Lunardo Marcello

O Secretário do Mui Ilustre Concelho dos Dez,
Bartholornacus Cominus

1610, a 8 de Março. Registado no livro na p. 39

Ioan. Baptista Breatto
Coadjunto da Congregação para a Blasfémia»

18 de Junho, 2006 Palmira Silva

Obscurantismo e ICAR, os tempos modernos – evolução

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta, teólogo, filósofo e também paleontólogo francês, pioneiro a desafiar os teólogos cristãos a considerarem a proscrita evolução. Tenta reconciliar o cristianismo com a ciência, mas as suas obras não são autorizadas pelo Vaticano. Em 1933 é negado o imprimatur a Le Milieu Divine. Em 1938 a L’Enérgie Humaine. Em 1944, Roma proíbe Le Phénomène Humaine, para lá enviado em 1941. Instalado em França de 1946 a 1951, não obtém das autoridades eclesiásticas autorização para poder candidatar-se ao Collège de France, em 1948. Retira-se então para Nova Iorque, onde se instala desde 1951. Um decreto do Santo Ofício de 6 de Dezembro de 1957 determina que os seus livros devem ser retirados das bibliotecas dos seminários e instituições religiosas e não devem ser vendidos em livrarias católicas. Em 1962, ainda o Santo Ofício condenava as respectivas teorias. Só em 1981 o Vaticano reabilita (mais ou menos) Chardin.

Arrogando-se como «possuidores da verdade absoluta», uma pecha da Igreja de Roma que permanece actual, desde os seus primórdios que os teólogos católicos advogam a literalidade da «palavra revelada», inenarrante sobre todos os aspectos do mundo. Assim a incompatibilidade entre o Cristianismo e as ciências foi desenhada muitos séculos atrás, aquando da invenção desta religião. A disputa evolução e criacionismo, uma das mais mediáticas batalhas actuais, é apenas mais uma entre muitas, tais como a crença no geocentrismo, que foram perdidas pela Igreja há muito tempo.

Encurralada pela ciência, que provou os disparates de muitas «verdades absolutas» reveladas, a Igreja passa hoje a mensagem de que as escrituras são apenas alegorias, portadoras da verdade teológica, mas que não correspondem quer à verdade histórica quer à verdade científica. Este abandono de interpretações literais parece definitivo, muito embora ainda permaneçam sectores católicos que não o aceitam. No entanto, mesmos os sectores mais progressistas da Igreja não aceitam questões que envolvam a negação da infalibilidade da revelação contida nas escrituras.

Especialmente problemáticas para Igreja são as neurociências, que põem em causa conceitos fundamentais para o catolicismo como a alma ou o livre arbítrio, e outras áreas das ciências da vida que negam ou ameaçam as «verdades eternas» da Bíblia. O problema da Igreja em lidar com essas ciências «ameaçadoras» é patente na condenação do Vaticano de certas linhas de investigação, em áreas, cada vez mais restritas, que a Igreja ulula serem exclusivamente da «competência divina».

O papa do Holocausto, Pio XII, foi o primeiro a abordar o tema evolução na sua encíclica de 1955, Humani Generis, apropriadamente com o sub-título «Sobre opiniões falsas que ameaçam a doutrina católica». No documento, que evidencia a fervorosa esperança de Pio XII em que a evolução se demonstre uma «moda» científica passageira, são atacados aqueles que levados «pelas más inclinações, nascidas do pecado original» «admitem sem discrição nem prudência o sistema evolucionista, que até no próprio campo das ciências naturais não foi ainda indiscutivelmente provado, pretendendo que se deve estendê-lo à origem de todas as coisas, e com ousadia sustentam a hipótese monista e panteísta de um mundo submetido a perpétua evolução».

De igual forma, são deplorados os teólogos (como Chardin) que – para além de desprezo pela teologia escolástica e pelo magistério da Igreja que consideram «como empecilho ao progresso e obstáculo à ciência», esquecendo que o «sagrado magistério, em questões de fé e moral, deve ser para todo o teólogo a norma próxima e universal da verdade» e que é sua obrigação «observar também as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu tais falsas opiniões» – «atrevem-se a adulterar o sentido das palavras com que o concílio Vaticano define que Deus é o autor da Sagrada Escritura, e renovam uma teoria já muitas vezes condenada, segundo a qual a inerrância da Sagrada Escritura se estende unicamente aos textos que tratam de Deus mesmo, ou da religião, ou da moral».

No entanto, para jogar pelo seguro não fosse a comunidade científica insistir na evolução, Pio XII declara, em plena contradição com o que afirma sobre a inenarrância das Escrituras, que nada na doutrina católica é negado por uma teoria que sugere que uma espécie pode evoluir noutra:

«Por isso o magistério da Igreja não proíbe, em conformidade com o estado actual das ciências humanas e da sagrada teologia, que nas investigações e discussões entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, desde que restrita à procura da origem do corpo humano em matéria viva preexistente – pois a fé católica obriga-nos a reter que as almas são directamente criadas por Deus».

Isto é, Pio XII pode tolerar a evolução desde que os cientistas não entrem nos campos proscritos da «animação» do corpo. As contradições óbvias desta aceitação reticente da evolução são ainda evidenciadas pela passagem em que Pio XII, que condena «o falso historicismo, que se atém só aos acontecimentos da vida humana», insiste na existência «histórica» de um Adão (e de uma Eva).

«Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha existido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.»

Esta incompatibilidade entre a evolução e o pecado original, assim como a questão da «alma», continuam irresolúveis 50 anos depois…

18 de Junho, 2006 Carlos Esperança

O protocolo do Estado

O CDS, na sua beata subserviência à ICAR, é bem a imagem de um partido de joelhos e mãos postas, pior, um partido de rastos.

Ignorando o carácter laico do Estado e a lei da liberdade religiosa, mais preocupado com a salvação da alma do que com a dignidade do Estado, o CDS pretende infiltrar nos actos públicos o patriarca Policarpo, equiparado a ministro.

Esquece o devoto partido que o cardeal já é ministro, mas… do culto, e a separação Estado/Igreja não consente promiscuidade entre as duas entidades.

Aliás, se um cardeal fosse equiparado a ministro, seria justo equiparar um Ayatollah a primeiro-ministro e os bispo, mullahs e rabinos a secretários de Estado.

Para os padres ficaria a equiparação a presidentes da Junta enquanto os cónegos e os monsenhores precederiam os vereadores municipais.

Ao sacristão ficaria reservado um lugar equiparado a contínuo enquanto os catequistas iriam de braço dado com os escriturários fazer número nas recepções oficiais.

Isto não seria um protocolo de Estado digno de um país civilizado mas ficava a meio caminho entre os desejos do CDS (e não só) e as teocracias que florescem no islão.