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Dia: 20 de Março, 2006

20 de Março, 2006 Carlos Esperança

Momento Zen da segunda-feira

João César das Neves (JCN), quiçá por algum pecado a necessitar de penitência urgente, reincidiu hoje no proselitismo.

JCN tem domingos que se adivinham difíceis: missas, hóstias, orações, genuflexões, contas de terços para dedilhar, leitura de obras pias e esmolas. Calcula-se a dificuldade de escrever a homilia para o Diário de Notícias, apesar das indulgências que abicha e da penitência de que se exonera.

O bem-aventurado sabe que tem leitores beatos e, sobretudo, inveterados ateus a quem hilaria com a prosa que debita enquanto lambe o palato à procura do último resquício de hóstia consagrada, debita a moral católica e faz o frete ao Papa.

Para salvar a alma ao que este homem se sujeita, que inanidades debita, que aleivosias profere!

Refreindo-se ao aborto, diz que o primeiro-ministro «se prepara para legalizar uma prática vergonhosa que até os selvagens mais boçais sempre consideraram infame». Lá isso é verdade, é a posição do Papa, dos bispos e dos católicos mais reaccionários. Mas escusava de os adjectivar de forma tão violenta e de uma autocrítica tão demolidora.

Quanto à aprovação da lei da Procriação Medicamente Assistida que «regulará as práticas mais abjectas do Admirável Mundo Novo» não lhe terá ocorrido que, à semelhança do que acontece nos países civilizados, é matéria que necessita de enquadramento legal?

JCN termina a homilia com o habitual embuste cristão, comparando o aborto e a reprodução medicamente assistida ao nazismo: «Nos anos 30 os alemães viam bem as vantagens da ordem que Hitler garantia, em troca de uma ?pequena? dose de violência».

Esqueceu o devoto que o nazismo foi filho do cristianismo, teve missas, lausperenes, orações, bênçãos, apoio activo do episcopado católico e o silêncio cúmplice de Pio XII.

Bendigamos este arauto da teologia da demência: «Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos Céus» (Mat. 5:3).

20 de Março, 2006 Palmira Silva

Três anos de Iraque

Com o Iraque à beira de uma guerra civil, não obstante os protestos em contrário de Bush, um pouco por todo o mundo milhares de pessoas manifestaram-se este fim de semana contra a guerra no Iraque e contra forma como Bush a conduziu, nos Estados Unidos inclusive, nomeadamente em Portland onde 10 000 pessoas se manifestaram, algumas com cartazes dizendo «Impeach the Evildoer».

De igual forma os níveis de aprovação de Bush em geral (34%) e em relação à guerra no Iraque em particular atingiram os mínimos absolutos na opinião pública americana, em que numa sondagem conduzida pela Princeton Survey Research Associates International em 16 e 17 de Março apenas 29% dos americanos (contra 69% no início da invasão) aprovam a forma como Bush conduziu a guerra no Iraque.

Mas estas estatísticas porque globais escondem que a popularidade de Bush não teve uma queda tão abissal, muito longe disso, numa faixa importante da população norte-americana: os evangélicos brancos. No número de Fevereiro da Christianity Today podemos ler que até Outubro, data em que uma sondagem foi efectuada pela referida revista, a percentagem de evangélicos brancos que apoiam a decisão do presidente em invadir o Iraque desceu de 77% em 2003 para 68%.

Para além de, claro, os evangélicos estarem mais interessados no que Bush faz para controlar a sexualidade alheia e para instalar uma teocracia cristã nos Estados Unidos, uma profusão de programas de apoio a Bush nas emissoras cristãs reforçam a mensagem do presidente de que esta é uma guerra divina contra «o eixo do mal», e para os cristãos tudo é válido, mesmo se baseado numa mentira, para combater as hordes do mal.

Um artigo de opinião do reverendo Jack R. Van Ens, pastor presbiteriano, explica de forma magistral porquê. Basicamente recordando as palavras de um seu antigo professor, o historiador George Marsden, no seu clássico «Fundamentalism and American Culture» (Oxford University Press 2005), que descreve o que acontece quando metáforas de guerra, abundantemente utilizadas no léxico do quotidiano dos cristãos já que a Bíblia é uma elegia à violência e à vingança, se misturam com nacionalismo. As causas da nação tornam-se sagradas. Alguém que questione Bush não só é não patriótico aos olhos dos devotos cristãos mas enferma de falta de carácter cristão. Não estão do lado do Senhor ou … do «Guerreiro divino», uma das formas bíblicas favoritas de referir Deus.