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Dia: 6 de Março, 2006

6 de Março, 2006 Ricardo Alves

Policarpo quer respeito mas não respeita

«Apesar do apregoado respeito pelas religiões e pela fé de quem acredita, alguns não hesitam em brincar com o sagrado; chegou-se mesmo a apregoar, em nome da liberdade, o direito à blasfémia. Fiquem sabendo que para nós que buscamos o rosto de Deus e procuramos viver a vida em diálogo com Ele, isso nos indigna e magoa (…) com o sagrado não se brinca. O respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão, mesmo em nome da liberdade. A todos esses que sentem não acreditar em Deus, eu digo em nome do povo crente: a vossa dificuldade em acreditar em Deus, não toca na realidade insofismável de Deus. Nós respeitamos a vossa descrença (…). Mas respeitai a nossa fé, (…) sobretudo respeitai Deus em quem acreditamos.»

José Policarpo inseriu novamente um pronunciamento político numa «homilia» (uma actividade que se supõe exclusivamente «espiritual»). Desta feita, o Cardeal-Patriarca formulou um pedido (ver mais acima), mas de uma forma (intencionalmente?) ambígua: não é claro se deseja uma lei que limite a liberdade de expressão criminalizando a blasfémia, ou se quer apenas que as pessoas se coíbam de exercer a sua liberdade quando isso lhe possa desagradar. Em qualquer dos casos, impôs limites aos que não cedem à «facilidade» de acreditar em «Deus»: não se pode troçar, diz ele, de «Deus», da «fé» e do «sagrado». O totalitarismo implícito no pedido é claro: Policarpo quer impôr a sua concepção do sagrado mesmo a quem não crê, e não exclui exigir leis que o ajudem nesse propósito (como, aliás, acontecia durante a Inquisição…). É caso para recordar que é fraca a fé que tem de ser protegida, pelas leis, de ideias contrárias, pois se fosse forte não necessitaria de exigir a quem não a partilha que se abstenha de a criticar.

Pessoalmente, tenho tanto interesse em insultar o «Deus» de Policarpo como o «Grande Manitu» ou o «Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível». Porém, reservo-me o direito de dar uma resposta proporcional quando os católicos insultam a minha inteligência e a minha sensibilidade (o que acontece regularmente em Fátima), quando insultam as mulheres ou as minorias comportamentais (é desnecessário apresentar exemplos…), ou quando insultam os descrentes por o serem. E não o poderia fazer se houvesse um efectivo «delito de blasfémia», pois os insultos emitidos pela igreja de Policarpo estariam protegidos pelo carácter «sagrado» da sua sustentação dogmática…

Devo acrescentar que Policarpo, honestamente, não deveria preocupar-se tanto. Em Portugal, sem necessidade das leis liberticidas que ele parece desejar, vigora um consenso social que circunscreve e abafa a crítica à sua religião. Um exemplo: aquando da operação proselitista «Congresso da Nova Evangelização», Policarpo foi à televisão (pública) apoiado por dois católicos, para confrontar um único descrente (o grande José Barata Moura). No mesmo programa, e aquando da crise dos cartunes, havia um muçulmano entre seis participantes. Outro exemplo: alguma vez se ouve alguém dizer na comunicação social, em alto e bom som, que o Sol não pode estar a «mexer-se para cima e para baixo» em Fátima e quietinho em Lisboa? Não. Há muito respeitinho pelo catolicismo e pelas suas crenças, e sem este blogue haveria ainda mais. Último exemplo: na imprensa e aqui nos blogues, andou tudo a chamar nomes (geralmente, merecidos) a Freitas do Amaral e a outros por não defenderem a liberdade de expressão. Com a excepção admirável de Vasco Pulido Valente, muito poucos ousam agora criticar Policarpo por dizer a mesmíssima coisa(*). E porquê? Porque é o líder índigena da igreja supostamente maioritária. A esses, que há poucas semanas se deliciaram a atacar uma religião que em Portugal nem 30 mil seguidores deve ter, recordo que também o Vaticano afirmou que «a liberdade de expressão não pode incluir o direito de ofender os sentimentos religiosos dos crentes». Portanto, desafio-os a irem contra o «religiosamente correcto» católico e chamarem «islamófilo» e «inimigo do Ocidente» a Policarpo, e insinuarem que Ratzinger tem «ódio à nossa civilização» e que é um «apaziguador» (não se esqueçam de compará-lo com Chamberlain!). Onde está a vossa coerência, meus caros «guerreiros civilizacionais»?

(*) Adenda: outra excepção ao «religiosamente correcto» católico é Rui Pena Pires. De resto, a defesa da liberdade de expressão foi relativizada pelos «indefectíveis» do mês passado. É pena.
6 de Março, 2006 Ricardo Alves

A ciência explicará a religião

A religião é um fenómeno de origem humana, e portanto natural, que um dia poderá ser explicado pela ciência. Esta ideia simples, que me parece óbvia, está a causar alguma polémica nos EUA a propósito da publicação de «Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon», um livro de Daniel Dennet que tenta explicar o como e o porquê de os homens terem inventado os deuses.

Daniel Dennet parte do princípio, quanto a mim correcto, de que compreender a origem das religiões é antes de tudo um problema científico, porque a religiosidade é um aspecto comportamental específico da espécie humana que pode e deve ser estudado como qualquer outro comportamento. O livro irritou bastante um crítico literário do The New York Times, que viu nele «uma alegre antologia das superstições contemporâneas» e que chamou ao autor «naturalista», «materialista», «racionalista» e outros «istas» (como «ateísta») que eu só posso considerar elogios. Segundo as recensões já disponíveis, o autor usa essencialmente a biologia evolutiva e a economia como ferramentas para compreender a utilidade da religião na evolução social da humanidade. E argumenta que quando compreendermos o porquê de haver crentes (o que está longe de acontecer…) poderemos precaver-nos contra os piores aspectos da religião.

O facto de Daniel Dennet ser um ateu empenhado (e um dos proponentes do termo «bright» para designar livre-pensadores em geral) adiciona algum picante à polémica
6 de Março, 2006 Carlos Esperança

Em defesa da liberdade


Resposta a um crente islâmico

O Diário as Beiras (3/3/06) publicou uma carta do leitor Cheikh Brahim Abdellahi, sob o título «Em defesa de humanidade, profeta MOHAMED, paz esteja com ele», dirigida ao primeiro-ministro dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, em que condena as caricaturas de Maomé e lhe exige, sem atraso, «que apresente desculpa não só ao mundo muçulmano, mas também a toda a humanidade, porque o profeta MOHAMED, a paz esteja com ele, representa a conclusão de todos os valores humanos nobres e que são respeitados por qualquer ser humano equilibrado».

Respeito as minorias mas respeito ainda mais, louvado seja o livre-pensamento, a verdade e a liberdade. Defendo os crentes mas reservo-me o direito de combater as crenças, louvado seja o livre pensamento.

Assim, permito-me esclarecer o devoto Cheikh de alguns equívocos:

1 – O primeiro-ministro dinamarquês é certamente leitor assíduo do «Diário as Beiras» mas não vai responder à sua exigência pelo facto de não poder, nem querer, abolir a liberdade de imprensa;

2 – Apesar do respeito que merece o profeta Maomé, louvado seja o livre-pensamento, as sociedades democráticas preferem o respeito pelos direitos humanos;

3 – O direito à liberdade de expressão é mais sagrado do que a alegada vontade de Maomé, Cristo ou Moisés;

4 – Em democracia a fé é facultativa, contrariamente à teocracia onde é obrigatória, e defende-se a liberdade de todas as religiões, bem como do agnosticismo e do ateísmo.

5 – Nos países laicos e democráticos ninguém é perseguido por razões religiosas e o direito de abandonar ou abraçar qualquer religião é defendido pelo Estado de direito.

Quanto aos valores humanos nobres, que invoca para Maomé, convém ter em conta:

I – Não são respeitados por todos os seres humanos equilibrados, como alega;

II – A democracia e a laicidade do Estado não são consentidas nos países muçulmanos;

III – O respeito pela igualdade entre os sexos não existe;

IV – A Declaração Universal dos Direitos do Homem é ignorada;

V – A decapitação, lapidação e tortura são práticas correntes.

Os Árabes que contribuíram para o humanismo e favoreceram o Renascimento europeu eram, então, mais tolerantes e cultos do que os cristãos mas, agora, regrediram e dão ao mundo exemplos de intolerância e fanatismo.

Não há, pois, uma guerra de civilizações. Há um antagonismo entre o islão político, de contornos fascistas, e a democracia, uma luta entre a civilização e a barbárie, um conflito entre a fé e a liberdade. Louvado seja o livre-pensamento.

Publicado simultaneamente no «Ponte Europa»