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Dia: 5 de Março, 2006

5 de Março, 2006 Palmira Silva

IDiotia e terror no Kansas

Em Novembro escrevi um post que relatava como o presidente do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade do Kansas (KU), Paul Mirecki, farto das IDiotias que assolam o estado, ofereceu uma disciplina com o título «Tópicos especiais em Religião: Desenho Inteligente, Criacionismo e outras Mitologias Religiosas».

A posição de Mirecki, e de muitos mais docentes da Universidade, é, como seria normal, que «O criacionismo é mitologia. O desenho inteligente é mitologia. Não é ciência. Eles tentam fazê-lo passar por ciência. Mas obviamente que não é».

Hoje recebi um mail de uma das minhas amigas americanas que foi à KU dar uma conferência e me pôs ao corrente dos desenvolvimentos da temerária acção de Mirecki.

Os fundamentalistas cristãos do Kansas não gostaram do novo curso proposto, que ofendia as suas crenças religiosas, nem da troca de mails de Mirecki com um grupo de estudantes fundamentalistas cristãos, alguns com uma linguagem um pouco mais arrojada, é um facto, nomeadamente o que referia que o curso seria «uma estalada» na «cara gorda dos fundamentalistas», mas eram mails privados. Tornados públicos por um conservador pelo menos igualmente … sem papas na língua, que costumava referir a na época primeira dama Hillary Clinton como… Hitlary!

Dois fanáticos cristãos resolveram mostrar a sua indignação em relação às ofensas à sua fé e crenças. Mirecki foi espancado em Dezembro, menos de um mês depois do anúncio da nova disciplina!

Uns dias depois, Mirecki foi forçado a demitir-se da sua posição embora a KU, afirme que a decisão, assim como o cancelamento do curso, foi «voluntária». Mirecki no entanto afirmou que «A Universidade penalizou-me e negou-me os meus direitos constiticionais de falar e expressar a minha opinião», afirmando ainda que a sua carreira foi arruinada pelos fundamentalistas cristãos.

Pelo que a minha amiga me contou parece que a Cleveland Indy Media Center só não acertou no ponto de interrogação quando descreveu o ocorrido num artigo intitulado «Terror fascista no Kansas

5 de Março, 2006 Palmira Silva

Um juíz «independente»

Um dos primeiros actos de Samuel Alito, o ultra-conservador católico recentemente confirmado para uma posição (vitalícia) no Supremo Tribunal norte-americano, foi enviar uma nota a James Clayton Dobson, o influente teocrata que fundou e dirige a organização fundamentalista Focus on the Family.

Na carta, Alito agradece a Dobson todo o apoio que este e a organização que dirige lhe prestaram e promete que «durante o tempo que estiver no Supremo Tribunal [isto é, até morrer] terei presente a confiança em mim depositada”.

A organização Americans United for Separation of Church and State, que considera que esta carta é mais uma prova que o mais recente Opus Dei no Supremo está no «bolso» dos teocratas, já protestou o respectivo teor.

«O Juíz Alito deveria seguir a Constituição e não as ordens de Dobson e dos teocratas» afirmou o Rev. Barry W. Lynn, o director executivo da Americans United. «Esta nota sugere fortemente que Alito tem uma agenda de extrema-direita em vez de ser um juíz para todos». «É obscenamente desadequada. Alito parece um candidato político numa volta vitoriosa em vez de um juíz justo e independente».

Infelizmente a confirmação de Alito para o Supremo era indicação evidente das objecções agora expressas. Os Estados Unidos estão em risco de se transformarem numa teocracia cristã

5 de Março, 2006 Palmira Silva

Docência e discriminação

A Universidade de Charleston, na Virginia, uma instituição privada não-religiosa, alterou os termos de um anúncio de recrutamento para um professor de ética, depois do primeiro anúncio que exigia um docente que «deve apresentar uma crença em Deus e apresentar valores éticos e morais com uma perspectiva centrada em Deus» ter sido considerado em violação do artigo VII do Civil Rights Act.

Ian Ayres, da Yale University Law School e perito em direitos civis, afirmou na terça-feira, um dia depois do dito anúncio ter aparecido, que o anúncio era discriminatório em termos de religião e como tal uma violação dos direitos civis de ateus, agnósticos e crentes em religiões ateístas (como o budismo), opinião corroborada por Erwin Chemerinsky, um professor de direito na Duke University, que afirma que a nova redacção de angariação de pessoal docente é mais segura em termos legais.

Claro que a necessidade de não discriminação com base na religião se aplica apenas a instituições não religiosas. As Universidades confessionais podem discriminar à vontade desde que as «regras» para a discriminação religiosa sejam públicas. E estas regras não implicam apenas que ateus e agnósticos sejam personas non gratas no campus

Por exemplo, no início do ano o Wheaton College em Illinois despediu um professor de Filosofia, Joshua Hochschild, depois de este se ter convertido ao catolicismo.

Nesta Universidade os docentes são obrigados a assinar uma declaração de fé que, de acordo com a «Missão» da instituição, é um sumário da doutrina bíblica em acordo com o cristianismo evangélico e enumera as crenças que todos os funcionários devem ter: o Antigo e Novo testamentos «são completamente verdadeiros e de autoridade suprema e final», o nascimento livre de pecado original de Jesus (a virgindade de Maria, não o dogma da Imaculada Concepção, um dogma católico) é inquestionável assim como a existência de Satanás, a criação por Deus de Adão e Eva e a dentadinha na maçã na base do pecado original e da «Queda», etc..

O despedimento de Hochschild, que se declarou disposto a seguir esta declaração de fé, baseou-se no facto de a sua conversão violar a crença de que apenas as escrituras ( e não a exegese destas debitada pelo Papa e pelo Vaticano, o cerne do catolicismo) definem os objectivos de Deus para a humanidade.

Hochschild dá agora aulas na Mount St. Mary’s University, uma Universidade católica em Maryland, onde a exegese de Roma é a norma a ser seguida…

De igual forma a Oklahoma Christian University requer que os seus empregados sigam uma declaração de fé que abrange não apenas crenças mas também condutas. Assim, docentes e não docentes devem usar não exactamente burkas mas quase e não podem ter sexo fora do casamento.

Os seus funcionários foram ainda notificados no início do ano que a Universidade pretende alterar a sua política de forma a poder ainda despedir quem se divorcie ou separe sem intenção de reconciliação…