Loading

Dia: 1 de Setembro, 2005

1 de Setembro, 2005 Ricardo Alves

Abriu a primeira escola privada humanista dos EUA

Nos EUA, funcionará pela primeira vez no ano lectivo 2005-2006 a Carl Sagan Academy, uma escola secundária privada baseada em princípios humanistas: o livre exame, o método científico e os valores democráticos. Situa-se na localidade de Tampa, na Florida, e começará com 55 alunos divididos por três turmas.

A escola foi fundada pela Associação de Humanistas da Florida, como são fundadas por igrejas outras escolas privadas parcialmente subsidiadas pelo Estado. Os subsídios públicos comprometem a escola a não fazer a propaganda do ateísmo, tal como as escolas religiosas subsidiadas com dinheiros públicos não deveriam fazer proselitismo religioso. O financiamento restante vem do Institute for Humanist Studies. Os livros criacionistas não fazem parte do currículo.

Paradoxalmente, a escola vê-se obrigada a funcionar no edifício de uma igreja.
1 de Setembro, 2005 Palmira Silva

Neo-criacionismo

O desenho inteligente ou IDiotia (Intelligent Design, ID) é simplesmente uma nova forma, menos acéfala, de introduzir o criacionismo bíblico nas salas de aulas de ciência. Não obstante o cuidado que os IDiotas têm em não referir Deus, apenas um misterioso «designer», e em expurgar qualquer citação bíblica dos seus textos, é óbvia a «guerra» em que estão envolvidos. E são de facto neo-criacionistas como é evidente se considerarmos que o único livro de texto da IDiotia recomendado como «leitura suplementar» nas escolas americanas, «Of Pandas and People», é apenas uma versão revista do criacionismo puro e duro, em que Deus foi substituído pelo tal misterioso «designer» e foram cortadas as passagens bíblicas originais. E embora o livro seja supostamente publicado por uma obscura editora, a «Haughton Publishing Company», na realidade a «Horticultural Printers, Inc.» que imprime rótulos e catálogos de produtos para horticultura e livros de instruções em como operar maquinaria para a indústria do algodão, na realidade, os Pandas são um livro da «Foundation for Thought and Ethics», uma organização devotada a promover o criacionismo.

O templo dos neo-criacionistas disfarçados de IDiotas é o Discovery Institute, uma instituição sem problemas de financiamento que exibe como grande trunfo uma lista de 400 cientistas, na sua maioria ligados ao próprio Instituto, que segundo o DI apresentam grandes dúvidas em relação ao evolucionismo. Bem, desde há uma semana apenas 399, já que um dos mais proeminentes listados, Bob Davidson, professor de Medicina na Universidade de Washington, fez uma retractação pública da sua ligação ao DI. Afirmando estar embaraçado por alguma vez se ter ligado ao DI e ter ficado chocado quando viu que o DI afirma que a evolução é «uma teoria em crise». Afirmação que Davidson considera «Hilariante: foram relizadas milhões de experiências ao longo de mais de um século que suportam a evolução».

Outro dos nomes sonantes dos IDiotas é Michael Behe, autor do livro «A caixa preta de Darwin», professor de Bioquímica no Departmento de Ciências Biológicas da Universidade de Lehigh. Posição IDiota não subscrita por qualquer colega e reiterado numa página institucional devotada a explicar que a posição de Behe não é seguida por mais algum membro do corpo docente da instituição. A posição colectiva do Departamento em relação ao desenho inteligente é a habitual para qualquer cientista digno do nome: não tem qualquer base em ciência e não deve ser considerado algo científico.

Com as guerras da evolução acesas nos Estados Unidos e talvez para acentuar essa posição, no próximo mês de Outubro Ken Miller, da Universidade Brown, um cientistas muito vocal contra as IDiotias, dará uma conferência em Lehigh com o tema «Darwin’s Genome: Answering the Challenge of ‘Intelligent Design’» (O genoma de Darwin: respondendo ao desafio do ‘Desenho Inteligente’).

Considerando que a comunidade científica americana em peso considera a IDiotia apenas uma forma disfarçada de intoduzir religião nas aulas de ciência, sem qualquer resquício de ciência a contaminar o que é demagogia religiosa pura e dura, que a maioria das sociedades e instituições científicas americanas o afirmam nas respectivas páginas (por exemplo a Sociedade Botânica, a Sociedade Geológica, a Sociedade Paleontológica e a American Association for the Advancement of Science, que publica a revista Science) não consigo perceber os méritos do pseudo-debate sobre o ensino paralelo do evolucionismo e da IDiotia em aulas de ciência. A IDiotia simplesmente não é ciência! Pseudo-debates que ameaçam extravasar dos Estados Unidos para a Europa e para a Austrália!

1 de Setembro, 2005 Carlos Esperança

O mercado da fé

As religiões não se conformam em tornar-se uma prática facultativa nem sequer um complemento do quotidiano dos cidadãos, querem ser um modo de vida, o objectivo primordial dos crentes, em suma, um fim a que se hipotequem os clientes.

O clero é composto por propagandistas da fé, hierarquizados, com objectivos traçados e avaliações de resultados. Os parasitas de Deus organizam uma máquina que os tritura a si próprios e esmaga os conversos.

A luta pelo mercado da fé começa nas crianças, fáceis de influenciar, permeáveis ao fanatismo, vítimas do imaginário delirante dos vendedores do Paraíso e das virtudes do seu Deus. Logo nos primeiros dias de vida, levam com um sacramento. As doses de reforço vêm, ao longo da vida, com nomes diferentes, para fidelização dos clientes e consolidação do mercado.

Os ritos assumem enorme importância na estratégia de marketing. São determinantes os usos e costumes sociais, cuja violência inicial se esquece, consolidados pelo argumento da tradição. A censura social, em meios rurais ou suburbanos, é um precioso auxiliar na perpetuação dos ritos religiosos.

As festas e os ritos de momentos especiais contribuem para que a religião e os reféns se mantenham. O baptismo, o crisma, o casamento e o funeral são eventos promocionais, de forte festança os três primeiros e de dorida perda o último. A Igreja aparece sempre, se a deixarem, nos momentos decisivos, para conduzir as cerimónias e afirmar o poder.

A secularização em curso nos países civilizados anda a par com o ostracismo, discriminações e intolerância dos fanáticos contra os que se vão libertando do poder do clero.

Na Beira Alta havia pais que só recebiam em casa os filhos depois de provarem que era canónico o casamento entretanto celebrado e baptizados os filhos dele resultantes. Um casal meu conhecido resistiu vários anos mas as saudades da velha e intransigente mãe levou-o a casar pela igreja e a baptizar a filha entretanto nascida.

A chantagem dos afectos, a mando do padre, e os preconceitos estão na origem das cedências que perpetuam o poder da ICAR e influenciam as estatísticas com que os bispos ameaçam o Estado.