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Dia: 19 de Agosto, 2005

19 de Agosto, 2005 Carlos Esperança

Secularização – condição de paz

A emancipação do Estado face à religião iniciou-se em 1648, após a guerra dos 30 anos, com a Paz da Vestfália e ampliou-se com as leis de separação dos séc. XIX e XX, sendo paradigmática a lei de 1905, em França, que instituiu a laicidade do Estado.

A libertação social e cultural do controle das instituições e símbolos religiosos foi um processo lento e traumático que se afirmou no séc. XIX e conferiu à modernidade ocidental a sua identidade.

A secularização libertou a sociedade do clericalismo e fez emergir direitos, liberdades e garantias individuais que são apanágio da democracia. A autonomia do Estado garantiu a liberdade religiosa, a tolerância e a paz civil.

Não há religiões eternas nem sociedades seculares perpétuas. As três religiões do livro, ou abraâmicas, facilmente se radicalizam. O proselitismo nasce na cabeça do clero e medra no coração dos crentes.

Os devotos crêem na origem divina dos livros sagrados e na verdade literal das páginas vertidas da tradição oral com a crueza das épocas em que foram impressas.

Os fanáticos recusam a separação da Igreja e do Estado, impõem dogmas à sociedade e perseguem os hereges. Odeiam os crentes das outras religiões, os menos fervorosos da sua e os sectores laicos da sociedade.

Em 1979, a vitória do ayatollah Khomeni, no Irão, deu início a um movimento radical de reislamização que contagiou Estados árabes, largas camadas sociais do Médio Oriente e sectores árabes e não árabes da Europa e dos EUA.

Por sua vez o judaísmo, numa atitude simétrica, viu os movimentos ultra-ortodoxos ganharem dinamismo, influência e armas, empenhando-se numa luta que tanto visa os palestinianos como os sectores sionistas laicos.

O termo «fundamentalismo» teve origem no protestantismo evangélico norte-americano do início do séc. XX. Exprimiu o proselitismo, recusa da distinção entre o sagrado e o profano, a difusão do deus apocalíptico, cruel, intolerante e avesso à modernidade, saído da exegese bíblica mais reaccionária. Esse radicalismo não parou de expandir-se e já contaminou o aparelho de Estado dos EUA.

O catolicismo, desacreditado pela cumplicidade com regimes obsoletos (monarquias absolutas, fascismo, ditaduras várias), debilitou-se na Europa e facilitou a secularização. O autoritarismo e a ortodoxia regressaram com João Paulo II (JP2), que arrumou o concílio Vaticano II e recuperou o Vaticano I e o de Trento.

JP2 transformou a Igreja católica num instrumento de luta contra a modernidade, o espírito liberal e a tolerância das modernas democracias. Tem sido particularmente feroz na América latina e autoritária e agressiva nos Estados onde o poder do Vaticano ainda conta, através de movimentos sectários de que Bento XVI é herdeiro e protector, se é que não esteve na sua génese.

A recente chegada ao poder de líderes políticos que explicitam publicamente a sua fé, em países com fortes tradições democráticas (EUA e Reino Unido), foi um estímulo para os clérigos e um perigo para a laicidade do Estado. Por outro lado, constituem um exemplo perverso para as populações saídas de velhas ditaduras (Portugal, Espanha, Polónia, Grécia, Croácia), facilmente disponíveis para outras sujeições.

A interferência da religião no Estado deve ser vista, tal como a intromissão militar, a influência tribal ou as oligarquias – uma forma de despotismo que urge erradicar.

A ameaça de Deus paira de novo sobre a Europa. Os saprófitas da Providência vestem as sotainas e ensaiam o regresso ao poder. Os pregadores do ódio voltaram aos púlpitos.

19 de Agosto, 2005 Palmira Silva

Mo Mowlam

Morreu Mo Mowlam, uma das figuras mais carismáticas do Partido Trabalhista inglês nos anos 90. Mo Mowlan foi secretária para a Irlanda do Norte e conduziu as conversações que culminaram em 1998 na assinatura do acordo de paz de Belfast, mais conhecido como Good Friday, crucial para o processo de paz nesta tão conturbada zona do globo.

Talvez o facto de Mo Mowlam ser uma ateísta «devota», como se descrevia, tenha impedido acusações de favoritismo em relação a qualquer das facções cristãs que se degladiam há séculos na Irlanda do Norte. E o que é certo é que o processo de paz na Irlanda do Norte parece firmemente estabelecido!

19 de Agosto, 2005 Palmira Silva

Atentados no Bangladesh

A autoria dos atentados de quarta-feira no Bangladesh, que envolveram cerca de 350 bombas, foi atribuída ao grupo radical islâmico Jamayetul Mujahideen, proíbido no país.

As bombas caseiras de pequena dimensão foram colocadas perto de edíficios administrativos, tribunais, estações de comboios e autocarros. Perto dos locais onde se deram as explosões foram encontrados panfletos do Jamayetul Mujahideen onde se lia «É tempo de implementar a lei islâmica no Bangladesh. Não há futuro com leis feitas pelo homem».

Nos últimos anos surgiram no Blangladesh vários grupos militantes e radicais advogando a lei islâmica, especialmente nas zonas pobres do norte e sul do país. País em que pouco islâmicamente o primeiro-ministro é uma mulher…