Loading

Dia: 11 de Novembro, 2004

11 de Novembro, 2004 André Esteves

Ayaan Hirsi Ali fala sobre o assassinato de Theo Van Gogh

Publicado pela primeira vez, no NRC Handelsblad em Holandês.

A minha reacção inicial de choque e descrença deu lugar a um sentimento de dor intensa. Estou a sofrer pela morte de Theo. Sofrendo porque, agora, ele não pode ir para a América com o seu filho. Porque ele teve que morrer para focar a atenção de todos na presença de indivíduos cuja convicção religiosa é para eles muito mais importante que a vida humana. Eu sofro porque outra vez a Holanda perdeu a sua inocência, uma inocência da qual Theo era um expoente.

Os ataques terroristas na América e em Espanha foram olhados como algo que só poderia acontecer lá, mas não aqui. A ingenuidade de Theo não era de que não poderia acontecer aqui, mas que não iria acontecer a ele. Ele dizia-me: “Eu sou o idiota da aldeia; eles não me vão tocar. Sê cuidadosa, tu é que és a apóstata e mulher.”

Eu sofro porque eu e os nossos amigos comuns, não podemos congratulá-lo do seu novo filme “0650,” do qual ele estava muito orgulhoso, mas também estou zangada, porque ele está morto e eu estou viva. Eu sei que estou viva porque tenho protecção policial e ele não a tinha.

Estou zangada porque ele foi morto num assassinato ritual. Estou zangada porque ouço o responsável da justiça dizer que não tinha instruções para proteger Van Gogh. Estou zangada pela pobre desculpa de que Van Gogh não queria nenhuma protecção para ele, porque eu sei que pessoas em risco, políticos, são forçados a ter essa protecção, quer queiram, quer não, o que protege não só a as suas vidas, mas também a ordem pública e a segurança nacional.

Poderia a morte de Theo Van Gogh ter sido evitada? Havia indicações suficientes de que ele deveria ser protegido? Em 30 de Agosto, um dia depois das transmissões dos “Convidados do Verão”, incluindo a da “Submissão, Parte 1”, a foto de Theo Van Gogh foi colocada num site islamista debaixo da minha fotografia. A minha foto era comentada como a “A maligna e infiel Mortadda” e a dele “o maligno infiel Ribald”.

Vinte e dois investigadores foram postos a descobrir quem era o responsável.

Eu fiz uma queixa à polícia e o responsável foi condenado a nove meses de prisão. Foi Theo consultado por causa disto? Será que ninguém considerou que a vingança era iminente, não só por causa do filme, mas também porque um deles tinha sido preso?

Eu estou zangada porque sei que o assassino não está sozinho: ele é membro de uma rede de muçulmanos que estão profundamente embrenhados nas suas crenças, e que caminham pelas ruas com a intenção de matar pessoas inocentes. Além disso o assassino pode preparar o seu crime com o conhecimento de amigos e conhecidos, pessoas que por elas próprias não matariam outras pessoas, mas que não se importaram com a morte de Theo. Este facto faz do assassínio de Van Gogh, muito diferente das ameaças de activistas dos direitos dos animais a políticos, ou de cartas com balas enviadas para a polícia. Essas duas ameaças podem ser controladas. O terrorismo islâmico, tanto na Holanda como fora dela, consegue crescer e sobreviver porque está integrado num círculo maior de muçulmanos amigos. Estou zangada porque este facto nunca é completamente compreendido pelas pessoas responsáveis pela nossa segurança.

Sinto-me culpada quando abordei Theo com o script para o filme “Submissão”. E, agora, ele morreu por causa dele. Mas na fria luz da manhã, eu sei que só o assassino é culpado da sua morte.

Instintivamente, isso é-me confuso. Theo e eu discutimos profundamente as possíveis consequências do filme para ambos. Ele dizia: “Logo que estas considerações te dissuadam de exprimires a tua opinião, não é esse o fim da tua livre expressão? Isso é milho para a mó dos islamistas.”

Eu estava preparada para ir muito longe para que as pessoas se levantassem e notassem: as autoridades holandesas que têm de se aperceber que o Islão radical e os seus apoiantes se instalaram na Holanda; a população islamita, que deve aprender a ver as horríveis marcas de nascimento da sua própria religião.

A população islamita deve aperceber-se de que as suas desvantagens não são uma função ou consequência de uma crença fraca em Deus, ou de discriminação, como os radicais desejam que aconteça, mas em parte é a consequência das suas próprias acções. O tratamento do indivíduo, a posição social das mulheres, a criação de guetos como as escolas islâmicas, são esses os factores que explicam o atraso da comunidade islâmica em relação às outras.

Theo concordava comigo em todos estes pontos. À sua maneira, e como realizador de cinema, ele tentou, na medida do possível, não se isolar da juventude islâmica mas comunicar com ela.

Eu sinto-me culpada porque abusei da sua falta de medo, porque eu sei que qualquer um que critique a escritura sagrada, está num grande perigo. Um homem foi morto de uma maneira abominável, simplesmente por causa do que acreditava. Isto é relativamente novo na Holanda, mas nos países islâmicos é parte da vida de todos os dias.

Hoje, embora os extremistas ainda sejam uma pequena minoria entre os nossos concidadãos muçulmanos, a influência potencial dentro desse grupo é enorme.

Ayaan Hirsi Ali

11 de Novembro, 2004 Carlos Esperança

A América que não muda

Sob o título «A América que não muda» (Público, 10/11), José Pedro Zúquete (JPZ) justifica com comovente ternura a vitória de Bush com argumentos certamente procedentes e, outros, de beata motivação e manifesta debilidade.

Entre estes últimos encontram-se os que atribuem aos EUA uma religiosidade que lhe terá sido legada pelos fundadores, na sua grande maioria ligados à maçonaria, livres-pensadores e defensores do laicismo, valores que impregnam a Constituição americana e constituem a marca genética dos princípios democráticos, liberais e tolerantes que a caracterizam.

Há, aliás, uma evidente contradição quando JPZ afirma que «desde o início houve a separação da Igreja e do Estado» imediatamente após ter afirmado que «desde o início da história americana que a política abraçou a religião», fazendo tábua rasa do carácter laico, historicamente pioneiro, da Constituição.

Muitas das «figuras sagradas» dos EUA a que alude foram agnósticas e, entre as maiores, houve quem considerasse o cristianismo como um conjunto de meras superstições. Mas, na ânsia de reescrever a história do grande país e justificar os desvios recentes, JPZ não hesita em apoiar-se nas referência religiosas que acompanham os símbolos da soberania como se essas referências fossem uma herança da fundação e não tivessem aparecido apenas no séc. XX sob influência de radicalismos religiosos.

Atribuir a um país com uma constituição profundamente laica carácter não laico, o que a deriva metodista e outros fundamentalismos evangélicos se esforçam por desvirtuar, é uma mistificação que serve os desígnios de um proselitismo agressivo e trai a verdade histórica e os princípios de tolerância religiosa de que os EUA são herdeiros.

Quanto à ligação que JPZ estabelece entre Deus e liberdade e entre democracia e religião, deve esquecer-se que a Bertrand Russell foi negada a liberdade de ensinar nos EUA, por ser ateu, e que a religião que obriga ao estudo do criacionismo bíblico e, se possível, à proibição do estudo do evolucionismo não é certamente uma referência democrática nem um caminho recomendável.

«A América que não muda» é apenas a América que mudou. Para pior.

11 de Novembro, 2004 Palmira Silva

E agora?

A autoridade palestiniana declarou a morte de Yasser Arafat.

Que irá agora acontecer nesta zona tão conturbada do globo com a morte do carismático líder palestiano, cuja aversão a rivais impediu uma sucessão clara e incontestada? Será que vai emergir o líder forte que permita as negociações efectivas da paz que Israel sempre reclamou ser impossível com Arafat? Ou os conflitos alargar-se-ão a disputas internas pela liderança palestiniana? As próximas horas podem ser cruciais…