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Dia: 18 de Outubro, 2004

18 de Outubro, 2004 André Esteves

O Kitsch religioso da semana

A publicidade que vêm à vossa direita, é um anúncio de uma igreja finlandesa a tentar chamar os mais jovens dos seus computadores para a igreja.

Os computadores e a religião são dois comboios, prestes a chocar a alta velocidade. O computador é A inovação tecnológica sem precedentes na história da humanidade.

Turing, Von Neuman e tantos outros, tornaram reais construções teóricas que só pretendiam lidar com os problemas postos pela lógica matemática. Mas quão profícuos se demonstraram essas construções teóricas!!

Hoje, a mundivivência religiosa dos crentes é abalada pelo computador. Esse objecto que para as crianças tanto está vivo, como não pode morrer.

A sua existência é uma dissonância profunda numa visão de um mundo construído por um deus. E as questões filosóficas que os próprios objectos computacionais levantam são subversivas…

Por exemplo, o problema de Turing levanta a questão da validade da revelação, já que não podemos distinguir entre esta e a sua emulação(e logo mentira) por parte do profeta. O que levanta a própria questão das boas intenções de Deus, e logo ao problema do mal.

E a capacidade cada vez maior de cálculo e raciocínio, faz-nos antever um dia a existência de computadores inteligentes…

Ainda me lembro da liberdade e mudança de mentalidades que um mero undo num programa de ambiente gráfico trouxe a muitas pessoas. A vida também se podia viver, experimentando, aprendendo com os nossos erros. E isso, é liberdade.

As igrejas e religiões utilizarão os computadores como um novo medium para as suas actividades proselitadoras (Até já há igrejas virtuais e sacramentos em ambientes virtuais..). Mas o irónico, é que «o meio é a mensagem» e com os computadores ninguém pode ser, a partir de certo ponto de envolvimento, um mero e obediente receptor da mensagem divina.

18 de Outubro, 2004 André Esteves

Os Fait-Divers dos Últimos Dias

Bangladesh: fundamentalistas islâmicos furiosos com o futebol feminino

Manifestações realizaram-se em Dhaka, capital do Bangladesh contra o início do campeonato nacional feminino de futebol. Abanando t-shirts e calções, os crentes fundamentalistas acusavam o futebol feminino de ser anti-islâmico, ao exibir partes do corpo da mulher.

Alguém já imaginou um jogo de futebol com burkas?

A nível do ataque ofensivo, surgem imensas dificuldades, por exemplo, ao rematar a bola. A nível defensivo, as vantagens multiplicam-se. Pelo menos, a guarda-redes decididamente não necessitaria de luvas …

Quanto à arbitragem… A expressão «manchas negras» tomaria outro significado.

A Notícia [Inglês

Canibal Inglês em Espanha, confessa, dizendo que Deus lhe entregou a vítima

Paul Durant, 44, preso em Espanha pelo assassinato de Karen Durrel, escreveu uma carta ao London Daily Mirror confessando-se, acrescentando que depois de matá-la a tinha cortado em bocadinhos, comido as partes que lhe pareceram «interessantes» e se livrado dos restos em pequenos sacos por vários contentores de lixo.

Durrant encontrara Karen e o namorado num bar, e confessara-lhe que estava em Espanha, numa missão divina, para matar e comer pedófilos. Ao mesmo tempo, acreditava que Deus lhe tinha entregue Karen como vítima.

Com 2000 anos de sugestões a psicóticos, é o que temos…

Notícia [Inglês]

Colégio católico no Peru exige certificado de virgindade às alunas

Na sequência de uma denúncia, veio-se a descobrir que a escola feminina Santa Rosa de Trujillo, no Peru, pedia às alunas que se matriculavam um certificado de virgindade e um exame ao sangue para despiste de drogas. O exame ao sangue ainda se compreende, mas um certificado de virgindade?

A notícia não nos esclarece, por sua vez, se aos professores seria pedido um certificado de impotência ou extracção das partes pudendas e da eliminação química do libido.

Notícia [Inglês]

18 de Outubro, 2004 Ricardo Alves

Peña-Ruiz, filósofo da laicidade

Como poderemos viver juntos, ateus e crentes?

A questão é de enorme actualidade em sociedades como a nossa, cada vez mais diversificadas nas opções espirituais dos seus cidadãos devido aos efeitos cruzados da secularização, da imigração e das ideias da «nova era»… A resposta que uma democracia deve dar, visando a convivência harmoniosa de todos, é a laicidade do Estado.

Henri Peña-Ruiz é o filósofo nosso contemporâneo que mais rigorosamente tem aprofundado e divulgado o conceito de laicidade, explicitando o seu valor positivo como solução para os problemas do nosso tempo. Nos seus numerosos livros (infelizmente, nenhum deles publicado em português) Peña-Ruiz tira todas as consequências da laicidade como o regime constitucional baseado na distinção clara entre a esfera pública (onde as crenças pessoais dos indivíduos devem ser postas de lado) e a esfera privada (onde se exerce a liberdade de consciência). Desfaz o mito de que a laicidade seria um ideal anti-religioso, e denuncia sem contemplações os integrismos religiosos e as derivas do comunitarismo multiculturalista. Reserva um papel muito especial à escola pública na formação dos futuros cidadãos.



No horizonte, Peña-Ruiz aponta-nos o ideal de cidadãos emancipados, iguais entre si, que possam efectuar as suas escolhas livres da tutela de grupos clericais.

Textos de Henri Peña-Ruiz disponíveis na internete:

Laïcité contre Pensée Unique (francês)

Laicismo y justicia social, palancas de la emancipación (castelhano)

Entrevista sobre o véu islâmico (francês)