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Dia: 19 de Maio, 2004

19 de Maio, 2004 Carlos Esperança

A Concordata é uma refeição indigesta cozinhada com incenso e água benta

Após 30 anos de liberdade, a ICAR, que fez um percurso discreto de transição para a democracia, decorrido o período de nojo a que a cumplicidade com a ditadura aconselhava, reapareceu com a manha de sempre, não a promover a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, mas a exigir mais igualdade para alguns ? neste caso para si. Reivindica como fonte do direito a tradição e a Concordata, uma e outra anacrónicas, ambas a merecer que o pudor as esquecesse.

O regime democrático prescindiu do direito de veto às nomeações episcopais e abdicou de ter a Igreja Católica refém. Esta, porém, não prescinde de privilégios adquiridos por um tratado obsoleto que a ditadura celebrou com um papa autoritário e anti-semita.

A chantagem sobre o Governo de Cavaco Silva permitiu-lhe obter de forma indigna um canal de televisão cuja falência conduziu ao fracasso de projectos mais ambiciosos de domínio da sociedade portuguesa.

Agora, com o Governo de Durão Barroso e a cumplicidade do PS, a ICAR obteve uma lei da liberdade religiosa profundamente iníqua e com a doutrina a ser vertida na nova concordata. O PSD e o CDS, de cócoras, e o PS e o PCP, genuflectidos, deixam Portugal, algures entre a França e o Afeganistão, com um tratado iníquo sofrivelmente compatível com a Constituição. A igualdade dos cidadãos perante a lei é uma miragem e o carácter laico do Estado uma quimera.

Continua fidelíssimo o reino. Não pensa, reza. Não se revolta, benze-se. Não se revê na Assembleia da República, deixa-se representar pela Conferência Episcopal, detentora de direitos especiais.

A Concordata não pode ser uma prenda oferecida a um pontífice pela passagem do seu 84.º aniversário, nem a Universidade Católica a contrapartida da oferta da batina do 3.º milagre a Fátima ou das promoções a beatos e santos prometidas para duas dezenas de bem-aventurados portugueses que aguardam transporte para os altares. Foi a instituição de uma suave Sharia romana com o empenhamento das sacristias, a orquestração da nunciatura e a cobardia dos aparelhos partidários.

Portugal está a caminho de tornar-se um protectorado do Vaticano, vergado ao peso da Cúria, asfixiado pelo incenso, afogado em água benta.

A revisão da Concordata deu lugar à prepotência clerical contra a sociedade laica, acolhida por um governo beato, com um país atónito e a oposição atordoada.

A santa aliança protagonizada pelo arco totalitário dos devotos em torno da imposição da fé e da exigência de privilégios para uma religião, substitui o trabalho de evangelização, de resultados duvidosos, pela prepotência estatal de eficácia mais provável.

As democracias sujeitam-se ao escrutínio eleitoral, as teocracias impõem o arbítrio eclesiástico apelidado de vontade divina.

19 de Maio, 2004 André Esteves

Os corvos e a teoria da mente

A alma1 é um daqueles conceitos de que todos crentes falam, mas de que ninguém tem uma noção ou opinião coerente. Tanto existe fisicamente, como é imaterial. É a essência de um ser e/ou a fonte da consciência. As opiniões e as teologias dividem-se, e o homem comum, ateu prático no seu dia a dia, põe nas horas de desespero, a sua esperança na sua existência. Esperanças, medo e emoções enganadoras é, o que em tudo isso se baseia.

Julgamos poder reconhecer nos outros a existência de alma, porque conseguimos nos aperceber neles, das suas intenções e objectivos.

Nos estudos cognitivos chama-se a isso ter uma «teoria da mente». Essa característica, culturalmente atribuída à alma, é antes um produto do cérebro. Algures nas nossas cabecinhas, existem circuitos neuronais que reconhecem a existência de uma mente num objecto exterior e nele projectamos os potenciais comportamentos e expectativas.

É um mecanismo muito útil. Experimentem, por exemplo, sobreviver a uma matilha de lobos, sem reconhecerem uma mente nos lobos. Ou viver numa sociedade humana, sem imaginarmos, ou aperceber-nos do que se passa na cabeça dos outros.

É também a fonte da empatia para com os outros, bem como a capacidade bem sucedida de mentir em sociedade. Não ter esta capacidade, faz de nós, seres humanos, autistas.

Depois do aparecimento do método científico, a investigação do comportamento animal veio a descobrir que nos mamíferos, uma vasta gama de animais, desde os gorilas até às cabras tinham a capacidade de suportar uma «teoria da mente».

E agora, foi a vez dos pássaros. Mais concretamente dos corvos.

Confesso-vos que sou um admirador de corvos. Não é uma espécie muito comum em Portugal, embora já tenha visto bandos no Alentejo e nalgumas zonas rurais do centro do país. Os corvos não são pássaros comuns. Trabalham em equipa. Têm rituais de acasalamento muito sofisticados e ligados ao valor que os parceiros têm na capacidade de resolução de problemas. Têm um especial fascínio por todo o género de objectos brilhantes e fora do comum. São curiosos além da necessidade. E sabem contar até três.

Dois artigos recentes2,3 vieram mostrar que os corvos têm uma teoria da mente. Mais: utilizam-na para mentir e enganar.

No primeiro artigo2, publicado nos Proceedings da Academia Real Inglesa, Bernd Heinrich e Thomas Bugnyar fizeram um clássico teste da existência de uma teoria da mente. Num ambiente controlado, estando o corvo numa área fechada e só com uma abertura frontal que dá para o experimentador, fez-se o experimentador olhar intensamente e durante algum tempo na direcção de um suposto objecto que está fora da vista do corvo. O experimentador retira-se. Observa-se, então, a reacção do corvo através de um sistema de vídeo.

Não é que todos os corvos, tentaram descobrir o que é que o humano tinha visto?

Noutra experiência, publicada no jornal Animal Cognition, a descoberta foi mais serentípica. Thomas Bugnyar apercebeu-se do relacionamento fora do vulgar de dois corvos durante uma experiência de cognição. O objectivo da experiência era determinar, se os corvos aprendem uns com os outros a localização de fontes de comida. E assim acontecia. Só que estes dois corvos, Hugin e Munin fizeram algo completamente inesperado.

Hugin, era o corvo mais diligente. Munin o mais dominante. De maneira que sempre que Hugin encontrava comida dentro de caixas tapadas, Munin apercebia-se e como dominante, afastava Hugin para comer a comida. Hugin fartou-se. Resultado: começou a enganar Munin, fingindo que comia de caixas vazias. Munin avançava para as caixas e enquanto se distraia a procurar comida, Hugin ia comer das caixas onde tinha encontrado comida.

Mas a história não fica por aqui. Munin apercebeu-se que estava a ser enganado. Resultado: deixou de ir logo às caixas onde Hugin fingia que comia e passou a observar com mais cuidado Hugin.

Por sua vez, Hufin apercebeu-se que Mugin se tinha apercebido.

Ficou furioso e atirou com caixas, palha e bebedouro para todos os lados. Tinha sido apanhado na mentira!

Será então, que os corvos têm alma? Não creio. Temos que ser rigorosos no uso da linguagem e não confundir descrições com realidades. A minha confiança, experiência e amor na navalha de Occam4, fazem-me a mim, chegar à conclusão que são só àtomos a combinarem-se de maneiras maravilhosas…

Somos todos maravilhosos.

Referências:

1 – o conceito de alma (em inglês) http://en.wikipedia.org/wiki/Soul

2 – Ravens, Corvus corax, follow gaze direction of humans around obstacles – Thomas Bugnyar , Mareike Stöwe (em inglês) Resumo do artigo

3 – Leading a conspecific away from food in ravens (Corvus corax) – Thomas Bugnyar, Kurt Kotrschal (em inglês) Resumo do Artigo

4 – Occam e a sua Navalha – Artigo na Sociedade da terra redonda

19 de Maio, 2004 Carlos Esperança

Se Deus me der vida e saúde estou para continuar – ameaçou Alberto João Jardim no X Congresso do PSD/Madeira

Aqui fica o texto hoje publicado no Diário As Beiras, de Coimbra, sobre o evento:

Acompanhei o X Congresso do PSD/Madeira com atenção, enquanto o bailinho da Madeira se repetia e os papelinhos laranja inundaram a cabeça dos congressistas pela 35.ª vez.

Há menos tempo no cargo do que Fidel de Castro, Alberto João Jardim (AJJ) sucedeu a si próprio e ameaçou: « Se Deus me der vida e saúde estou para continuar». Assim, se a opção estiver disponível, o vitalício Alberto João vai eternizar-se.

Entusiasmado, Dias Loureiro, presidente do Congresso Nacional do PSD, manifestou a aspiração de que Portugal se transformasse numa imensa Madeira. Mas, o que poderia ter sido interpretado como um desejo perverso, não passou de amabilidade para com o anfitrião. Já quando afirmou que «é difícil encontrar no mundo outro lugar onde a mão de Deus e do homem tenham trabalhado em tanta sintonia», ficou a dúvida se foi para comprometer Deus ou para desculpar AJJ.

Quando o ministro José Luís Arnault apontou Jardim como «exemplo de ética e de dádiva à causa pública» apenas tinha em mente o padrão por que se rege o governo da República.

Uma preocupação ficou, porém, a pairar quando AJJ declarou: «Em 2008 vamos ter de decidir se nos interessa continuar na União Europeia ou não, (…)». Apesar do susto sobre o futuro da Europa, fica-nos a consolação de saber que a Madeira, pode transformar-se numa das regiões mais democráticas do continente africano e com o mais antigo e experiente governante.

Se a Europa ficar privada do exótico dirigente, a África ganhará um respeitado régulo.

19 de Maio, 2004 jvasco

Castas

O Induísmo é uma Religião na qual existem 5 castas. As pessoas pertencem desde o nascimento a castas que vão desde os brahmanes (sacerdotes) até aos dalits (intocáveis). Uns são puros, os outros são considerados poluídos à nascença.

Um milhão de pessoas (há estatísticas que apresentam um número superior) sobretudo mulheres dalits – está encarregue, por nascimento, de fazer a remoção manual das fezes das latrinas, carregá-las à cabeça e despejá-las. Fazem isto do nascimento até à morte e porque nasceram numa dada família! Muitos ganham menos de 1 dólar por dia. Há leis contra este tipo de trabalho mas muitas destas pessoas são empregues por entidades públicas!

O sistema de castas é aceite tanto pelos brahmanes como pelos dalits, apesar de

se estar a apelar à consciencialização destes. É um sistema que se repercute nas várias instituições (exemplo: mesmo que alguns dalit apresentem queixas, a policia pode não aceitar as queixas porque são feitas por pessoas de castas inferiores).

Devo acrescentar que, em teoria, o sistema de castas é inconstitucional, mas na prática, ele é a realidade de um país. A realidade começa a mudar nalguns meios, havendo Dalits que são professores Universitários, mas essas são as excepções que confirmam esta regra desumana.

Há um texto da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas que pode ser visto na página da associação anti-escravatura. Nesse texto esta situação é descrita.

As superstições e Religiões podem trazer heranças e hábitos culturais que não se coadunam com uma sociedade humana e civilizada. A “casta dos intocáveis” parece ser um exemplo disso.