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Categoria: Medicina

21 de Novembro, 2022 João Monteiro

Sobre a eutanásia

Texto de Onofre Varela, previamente publicado no semanário Alto Minho.

D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, afirmou, em Fátima, que a eutanásia é uma questão humanitária que não pode ficar reduzida ao campo estritamente religioso (Jornal de Notícias, 8/11/2016). Dito assim, até ficamos com a ideia de que a Igreja aceita, pacificamente, a prática da eutanásia em casos extremos de doença incurável com a morte próxima anunciada e provocando grande sofrimento ao paciente. Em tal caso a eutanásia seria um modo de libertar o doente, e a sua família, da dor inglória provocada pela irreversibilidade do mal.

Porém, logo a seguir, o clérigo disse que a eutanásia representa “uma grave ameaça para as famílias e uma violação grave e inaceitável da ética médica”… o que acaba por virar ao contrário a interpretação possível da primeira frase do seu discurso!… E continua dizendo que “em nenhuma circunstância e sob nenhum pretexto, é legítimo a sociedade procurar induzir os médicos a violar o seu código deontológico e o seu compromisso com a vida e com os que sofrem”.

Este tipo de entendimento está sempre acoplado à crença… logo, também está sempre divorciado da realidade natural das coisas naturais. É neste mundo que vivemos, e não no fantasioso reino das religiões! Para os religiosos condenadores da eutanásia, ela é uma prática “criminosa” que não contempla a vida como “dádiva divina”. Não entendem que nem a eutanásia configura um crime (porque há sociedades que a legalizaram; logo, a ideia de homicídio para a prática da eutanásia, é errada), nem a vida é dádiva de um deus inexistente.

O raciocínio mais humano e fraterno, perante um caso de extremo sofrimento de alguém que vive dolorosamente os seus dias finais, aponta para que o doente usufrua de tratamento paliativo, sendo injectado com drogas suavizadoras para que a morte se cumpra sem dor. Porém, este pensamento parte, essencialmente, dos familiares e amigos que assistem à agonia do doente, e querem vê-lo ali, a respirar, para poderem demonstrar-lhe “amor e carinho”… mas quase sempre esquecem a vontade do próprio doente. Quem visita um doente terminal, manifesta a sua solidariedade nos poucos minutos que passa junto dele, e depois ausenta-se durante dias até à próxima visita caridosa. Mas o doente sente o seu sofrimento hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo… durante 24 horas por dia… e pensa, e sente, e sofre em cada momento que para ele é gigante!

Quando o doente tem a consciência do seu fim próximo; quando os médicos afirmam não haver marcha atrás no estado da doença que, inevitavelmente, o conduzirá à morte próxima e sofrida; e quando o paciente recusa drogas paliativas que lhe permitam respirar sem dor até ao momento final, e pede a prática da eutanásia… quem é que tem a última palavra sobre a sua própria vida?

A família?… A medicina?… O Estado?… A Igreja?… Ou ele próprio?

Ninguém é proprietário da minha vida. Sou eu o único proprietário de mim, e respondo pelas minhas acções, atitudes e vontades. Se, em consciência (repito: em consciência. Quando detentor de todas as minhas faculdades mentais), decido sair da vida por não me interessar vivê-la nas circunstâncias em que ela se me apresenta, ninguém tem o direito de contrariar a minha vontade, e todos têm a obrigação cívica de me respeitarem, incluindo nesse respeito aquele que é devido às minhas ideias e vontades. A vida de cada um não é passível de “privatização”, nem pela família, nem pela ciência médica, nem pelo Estado… e muito menos pela Igreja cuja ética religiosa choca com a minha ética cívica.

A crença religiosa é arrogante ao querer impor a sua vontade, esquecendo que as liberdades de pensamento, expressão e acção de cada um, são legisladas pelo Estado que é laico… e nunca pela Igreja!

Limitem-se as religiões a aconselhar os seus acólitos, e não interfiram na vida de quem dispensa as suas moralidades. A moral religiosa, se tem alguns lados positivos (assunto pouco pacífico a merecer muita discussão), acaba por se transformar em imoralidade quando defende a obrigação da entrega ao sofrimento para agradar a um deus fictício… provavelmente criado para apaziguar sentimentos… e mantido para exploração das almas. Devemos concluir que o sofrimento acaba por dar lucro à Igreja?…

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico) 

OV

Imagem de Tumisu por Pixabay
19 de Julho, 2018 Vítor Julião

Será que deus inspira as nossas invenções?

Eu sou provavelmente um dos poucos ateus que frequentam a igreja regularmente. Na verdade, é muito possível que eu seja um frequentador da igreja mais ativo do que muitas pessoas chamadas religiosas. O famoso ditado “esposa feliz, vida feliz” efetivamente explica porque eu participo, ela é muito religiosa e insiste em que os meus filhos sejam expostos. Estou aqui para garantir que entendi os acontecimentos atuais para explicar de maneira eficaz as alternativas para os meus filhos. A minha esposa, por sua vez, apoia os meus esforços para ampliar a compreensão científica e cultural das crianças (até agora elas tem tido cerca de 90% ou mais, nos testes em matemática e ciências). As crianças mais velhas já leram Dawkins e Hawking. O facto de terem uma ampla exposição a várias visões de mundo, leva a que surjam algumas perguntas interessantes por parte das crianças. No carro, a caminho de casa vindo da igreja, no domingo passado, meu filho (11 anos) parecia confuso com algo que ele aprendeu na escola dominical (chocante, certo?)

“Pai?” Perguntou ele do banco de trás, “O meu professor terminou a lição de hoje louvando a Deus por todas as coisas que ele nos deu: remédios, internet, aviões e outras invenções que ele disse ajudarem a espalhar a palavra de Deus, ajudando a tornar mais fácil, os missionários a chegar ao seu povo. ”

“Ok, essa é uma maneira de ver as coisas. Qual é a tua pergunta? ”, respondi eu.

“Se Deus é real e inspira inventores ou cientistas a descobrir coisas novas como a medicina ou algo assim, por que ele esperaria centenas de milhares de anos para fazer isso? Quero dizer, os humanos existem há muito tempo e poderiam ter usado os antibióticos já à 100 000 anos atrás, certo?

Mas que pergunta perfeita: por que um pai e criador benevolente e amoroso, iria esperar tanto tempo para “inspirar” a humanidade em coisas vitais para a nossa sobrevivência contínua e conforto vitalício?

Hebreus 4:13 diz: “Nada, em toda a criação, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descoberto e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos de prestar contas.”.

Que ideia linda. Deus, o grande criador dos céus e da terra, vê e conhece a todos. Nada é “escondido dele” como o versículo diz.

Usando essa lógica (como a professora da escola dominical fez), pode-se supor que, em 1546, quando Girolamo Fracastoro propôs, pela primeira vez, as ideias fundamentais que acabariam se tornando na Teoria Microbiana da Doença, Deus o abençoou com esse conhecimento. As pessoas que pensam dessa maneira, devem assumir que Deus já sabia sobre os microorganismos, porque os criou. Vírus e bactérias de todos os tipos, são os frutos de seus trabalhos criativos divinos, certo? Se tu fosses um crente, terias que responder “sim”. Mesmo os poucos fundamentalistas que afirmam que Satanás criou todas as coisas negativas na Terra, teriam que reconhecer que um Deus todo-poderoso, todo sabedoria, compreende a menor das complexidades desses organismos “malignos”.
No entanto, ele esperou até hoje…

Marcos 1:34 diz de Jesus: “e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças. Também expulsou muitos demónios; não permitia, porém, que estes falassem, porque sabiam quem ele era.”.

Outra ideia linda. Aqui nós temos Jesus (Deus em forma humana para a maioria dos cristãos) curando os enfermos. Eu gosto de imaginá-lo colocando as suas mãos sobre as suas cabeças perturbadas, dizendo alguma oração, e “voilá”… curado.

É dito que este verso aconteceu cerca de 1 500 anos antes que as primeiras ideias, que mais tarde se formaram na Teoria Microbiana da Doença, fossem “inspiradas”. Isso significa que, se esta fosse uma história verdadeira, Jesus sentou-se no chão, cara a cara com dezenas de pessoas doentes ou perturbadas, curando-as com palavras mágicas, sabendo o tempo todo que as suas doenças não tinham nada a ver com demónios. Ele, se quisermos acreditar na sua divindade, deveria saber que a “Criança Doente A” tinha paralisia cerebral e não um “demónio” no corpo, e que a “Mulher Doente B” estava a morrer de gripe e não sendo afligida “por uma maldade”. No entanto, esse nosso “salvador” preferiu não nos dizer nada disso, e, pelo contrário, ele continuou a sua magia como se também tivesse assumido que o diabo, ou alguma outra força mitológica, era o culpado.

O atual Presidente e Profeta da Igreja SUD (Mórmon) gosta de contar uma história da sua antiga carreira como cirurgião cardíaco. Em meados da década de 1960, ele foi questionado várias vezes por um homem de Utah, por um pedido de ajuda com um problema cardíaco que a medicina ainda não tinha encontrado uma solução para tratar. Esse homem disse ao Nelson que Deus o havia orientado a procurar a ajuda dele e que, com fé, Nelson saberia o que fazer. Então o jovem médico concordou em realizar uma cirurgia exploratória de coração aberto. Depois de cortar o homem, Nelson relembra: “Então, na minha mente, havia linhas pontilhadas mostradas neste anel que contém aquela válvula tricúspide: ‘Faça uma dobra aqui, uma dobra ali.’ Não foi perfeito, mas o paciente desfrutou dum ótimo resultado”. Esse procedimento tornou-se posteriormente o padrão internacional para esse tipo de problema.

Outras formas de cirurgia de coração aberto, foram realizadas desde 1801. Foram 160 anos antes da cirurgia “Jesus Take the Wheel” de Nelson. Estima-se que mais de um milhão de pessoas no mundo desenvolvido, morreram de problemas cardíacos semelhantes durante esses anos. Mais de um milhão de mortes antes que Deus decidisse inspirar um cirurgião, um cirurgião entre milhares de outras pessoas que devemos supor serem igualmente “dignas” desse conhecimento.
No entanto, ele esperou até hoje…

Aceitar a proposição de que a invenção e a inovação de qualquer coisa útil, são simplesmente inspirações de Deus em seres humanos dignos, é ignorar as tremendas quantidades de mortes e sofrimento mergulhadas em camadas como rochas sedimentares sob essas descobertas. Todas as vidas salvas pela penicilina, estão no cimo de milhões de outras pessoas ao longo da história humana, deixadas por “Deus” para morrer de morte dolorosa e evitável. Que tipo de criador sociopata e instável reteria propositadamente informações vitais aos seus “filhos”?

Provavelmente um que, na verdade, não existe.

Traduzido de Adam Harrison

6 de Maio, 2015 Administrador

Inquérito

A AAP foi contacta por duas alunas do 1.º ano do curso de Psicologia, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa no sentido de as ajudarmos a divulgar o seu inquérito Opiniões e Atitudes em Relação à Homossexualidade.

Pedimos aos nossos leitores que as ajudem a conseguir uma boa nota à cadeira de Grandes Teorias das Ciências Sociais.

Para responder, clicar aqui.

 

27 de Julho, 2013 Carlos Esperança

Para onde vai o S.N.S.?

A crescente transferência dos serviços sociais para domínios do chamado sector social – Misericórdias e IPSSs – ocupados pela Igreja católica, revela a irreprimível tendência de substituir a solidariedade pela caridade e de reduzir direitos humanos à vontade divina, discricionariamente administrada pelos bispos católicos.

O desmantelamento do Estado social leva ao regresso do poder clerical e ao retorno do status quo salazarista. À medida que a salvação da alma se torna cada vez mais uma não preocupação, as necessidades do corpo são progressivamente confiadas aos prosélitos da fé.

Não admira a ovação dispensada aos governantes que gravitam em torno de Cavaco, e a este, quando foram, em bando, prestar vassalagem ao novo patriarca de Lisboa.

Os portugueses perdem um módico de segurança e dignidade, que era função do Estado assegurar, e são entregues como mercadoria pia ao arbítrio das sacristias e a instituições privilegiadas pelos detentores do poder político.

A religião católica deixou de ser um assunto particular que cabe ao Estado respeitar, tal como todas as outras associações legais, e passa a parte integrante, sem se saber onde começa o poder das sotainas e termina o dos agentes do Estado.

Vamos por mau caminho. Querem impor-nos o Céu fazendo-nos descer ao Inferno.

23 de Janeiro, 2012 João Vasco Gama

Curas pela Fé

Alguns charlatães enriquecem à custa da Fé das pessoas, e usam entre outras ferramentas de persuasão as «curas pela Fé».

James Randi desmascara o célebre Peter Popoff:

E aqui Derren Brown explica alguns dos truques que são utilizados:

19 de Outubro, 2011 Raul Pereira

O conselho do pastor

Conselho do Pastor



Só por mera curiosidade, alguém no Brasil me pode dizer se já conhecia este conselho pertinaz? E o pastor em causa, será este? É que, a avaliar pela amostra, não me admiraria nada…

14 de Outubro, 2011 Raul Pereira

O bug de Steve Jobs…

…chamava-se Budismo temperado com pitadas de balelas new-age. Na opinião de Ramzi Amri, cirurgião oncológico da Harvard Medical School, que tem estudado formas do cancro que afectou o ex-patrão da Apple, a recusa em receber tratamentos pela medicina cientificamente comprovada poderá ter sido a causa da sua morte prematura, como explica o cientista no Quora.

Devo alertar primeiro que este não é um artigo contra Jobs, mas uma breve reflexão sobre o que parecem ter sido as suas opções de tratamento. Aqui não é o lugar para discutir a importância de Jobs neste início de século, nem se os Mac são melhores do que os PC, ou se o Android é superior ao iOS; até porque, embora adore computadores, considero que ainda estamos na infância da informática e continuo a achar que são todos um grande monte de esterco adorável, sem excepção: nem uma mísera cópia-de-segurança do nosso cérebro podemos fazer ainda, por exemplo! Como bosta magnífica que são, não tomo partido por nenhum, o debate é infrutífero. E longe de mim cometer o erro de atacar imediatamente quem adora os produtos Apple ao ponto de ficar dias numa fila, pois estas questões são exactamente como a religião: cada um segue o culto que quer (ou não segue nenhum) e ninguém tem nada a ver com isso… Sim, pronto, foi uma tentativa de piada. Nunca desistir do sentido de humor. Adiante.

A questão aqui é tentar perceber como é que um homem com a formação de Jobs preferiu confiar nas «medicinas» alternativas em detrimento da Medicina. E é muito difícil encontrar uma resposta quando falamos de um homem que profere um discurso como este [vídeo com legendas em Português] e não nos concentrarmos na sua espiritualidade e na época em que a adquiriu — viagem à Índia incluída. É que, ainda por cima, e de acordo com Ramzi Amri, o cancro que afectou Jobs nem era particularmente mortal, nem tampouco era o demolidor cancro pancreático que os meios-de-comunicação social (sempre rigorosos nestas coisas) divulgaram exaustivamente, mas uma forma de carcinoma que, apesar de ter tido origem no pâncreas, faz parte de um grupo restrito de tumores neuro-endocrinais que têm um prognóstico de tratamento bastante favorável, bastando para isso removê-los. Sim, simplesmente, sem beber urina diluída milhentas vezes em água, ou engolir uma pastilha de Gingko-biloba concentrado com ameixa de Elvas. Leva-nos até a questionar se teria sido o mesmo Jobs que disse, naquele discurso: «Don’t be trapped by dogma — which is living with the results of other people’s thinking». Recordámo-nos de súbito que sim, pois uns minutos antes tinha dito que caminhava 11 quilómetros para ir comer ao templo de Krishna, aos domingos… Ele afirma também, nessa mesma comunicação, que tinha sido submetido a cirurgia e havia retirado o tumor. Pois, mas passados anos a tentar mezinhas e apenas em último recurso, quando já era tarde demais, levando-o, até, a ter que remover o fígado e ao célebre transplante que se seguiu.

Claro que, para ele, que passou pela doce juventude nos anos 70 e, por essa razão, tal como tantos outros homens e mulheres na sua faixa etária no mundo ocidental, não lhe foi fácil pôr de lado as idiotices orientais que os ácidos ajudavam a cimentar nas sinapses. Mas, claramente (e ressalvando o facto de que Ramzi Amri fala sempre do ponto de vista hipotético), isto é o que pode acontecer quando se deixa passar a Ciência para segundo plano e o «veneno» da irracionalidade, como lhe chamou Hitchens, continua a corroer por dentro, mesmo em mentes brilhantes.

Steve Jobs nos anos 70

Steve Jobs nos anos 70

 

Steve Jobs, infelizmente, não era nenhum cientista. Ele geria, na sua forma peculiar, a criação de objectos tecnológicos e, como grande gestor que era e com a sua visão ousada e conhecimento único do seu cliente-alvo, tornou a Apple numa das empresas mais poderosas do mundo, o que já não foi pouco e é louvável a todos os níveis. Da Ciência, lamentavelmente, ele só mantinha a confiança nos componentes que lhe serviam para fabricar os seus produtos, pois para o que realmente importava, preferiu ignorá-la.

Para quem enaltece o Budismo e as paranóias new-age quando em comparação com outros cultos, este caso devia dar que pensar. Conheço até ateus que nutrem simpatia pela religião do obeso e pachorrento filósofo oriental. Amigos, tenho uma novidade para vocês: a religião é religião, é religião, é religião, é religião, e sempre esteve podre tanto a ocidente como a oriente, por toda a face do orbe terrestre.

Há uma frase que Jobs proferiu em Stanford que, apesar de completamente retirada do contexto, resume tudo: «It was awful tasting medicine, but I guess the patient needed it.»