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Mês: Junho 2017

22 de Junho, 2017 Carlos Esperança

Um crime é isso mesmo

A moldura penal de um crime inclui a sua natureza e motivações. O ódio sectário que se verifica em numerosos atentados tem motivações xenófobas, fatalmente agravadoras das penas que cabem aos criminosos.

Os crimes dos muçulmanos que se explodem e arrastam consigo os infiéis, convencidos de que vão jantar com o Profeta, depois de fazerem a catarse da repressão sexual que os consume em vida, com as 72 virgens que o manual lhes anuncia e um demente pregador lhes confirma, têm sido largamente divulgados na comunicação social.

A dissimulação com que os arautos do misericordioso profeta falam da religião de paz, como se tivesse havido uma tentativa séria de alterar a interpretação de um conjunto de versículos intoleráveis do manual ou de hadits do beduíno analfabeto, não contribui para conter a insânia de quem não se limita a acreditar e exige a conversão alheia.

A entrevista dada há dias pelo presidente turco à RTP-1, a Paulo Dentinho, é um manual de descaramento e disfarce da cobra que esconde o veneno, mas não evitou o asco que o réptil provoca. Era a versão contida e fria de um exaltado pregador da jhiad.

O que não costuma ser notícia são os crimes contra os muçulmanos. O atropelamento de crentes que saíam de uma mesquita de Londres, por um terrorista que veio a confirmar que era seu objetivo “matar muitos muçulmanos” insere-se numa disseminação do ódio sectário contra os que são sempre apresentados como algozes. Dados divulgados, e que passam despercebidos, indicam que os ataques de ódio contra muçulmanos conheceram, no Reino Unido, um aumento de 530% desde o atentado de 22 de maio em Manchester.

Não devemos tolerar ataques de dementes com gritos selvagens, “Deus é grande”, mas não podemos igualmente condescender com os ataques criminosos aos crentes de uma religião.

Combatam-se as crenças, defendam-se os crentes.

20 de Junho, 2017 Carlos Esperança

Fátima não promove a fé, apenas o obscurantismo

Dados da Universidade Católica

Segundo a Universidade Católica Portuguesa, os católicos têm estado a diminuir, em Portugal:
– «Este trabalho revelou que de 1999 a 2011 os católicos diminuíram 7,4% passando de 86,9% da população para 79,5%.»

– «Ao contrário da tendência de diminuição de católicos, duplicou a percentagem de pessoas com uma religião diferente da católica (2,7% em 1999 para 5,7% em 2011), assim como cresceu o número de pessoas sem qualquer religião (de 8,2% para 13,2%), um aumento que se sentiu em todas as categorias: os indiferentes passaram de 1,7% para 3,2%, os agnósticos de 1,7% para 2,2% e os ateus de 2,7% para 4,1%.»

– «A autonomia face às religiões é o traço mais saliente juntando os que sublinham como “não concordo com a doutrina de nenhuma igreja ou religião” (32,7% dos casos), “não concordo com as regras morais das igrejas e religiões” (22,2%), e “prefere ser independente face às normais e práticas de uma religião” (21,1%).»

– «Os investigadores descobriram ainda que os não crentes e crentes são maioritariamente mais novos, enquanto os católicos estão distribuídos por todos os escalões etários, mas cada vez mais envelhecidos.»

– «O estudo aponta ainda que 80% dos católicos vivem em zonas rurais, 66% em zonas urbanas, enquanto as outras religiões se concentram em zonas urbanas.»

Isto é: lá para meados deste século, os católicos serão menos de 50% da população.

Mas como os católicos estão cada vez mais envelhecidos, como mostra o estudo, teremos uma progressão menos aritmética e mais geométrica. Logo, daqui a 20 ou 30 anos, é possível que os católicos sejam menos do que 50% da população…

Outras igrejas têm crescido, como também mostrou o estudo, mas é mais a partir da decomposição do catolicismo. Menos de metade dos trânsfugas do catolicismo é que passam para outras igrejas…

Ateus e correlativos têm crescido, sendo cerca de 10% da população.

19 de Junho, 2017 Carlos Esperança

Fátima – Artigo publicado no Público

Público, sábado, 17 de Junho de 2017, p. 52.

Luís Reis Torgal*

PODERÁ SER FÁTIMA OBJECTO DA HISTÓRIA?

A História, como historiografia científica (não apologética), já produziu alguns textos fundamentais sobre Fátima. Além disso, surgiram textos polémicos e de divulgação de valor desigual, alguns que quase esqueceram aquilo que cientistas da História tentaram analisar, com base nos documentos possíveis, ao longo de muitos anos. Ficou claro — porque a História não julga, mas procura a interpretação objectiva — que a mensagem de Fátima se foi modificando desde 1917, tendo sempre como limites a própria política do Estado e da Igreja. Por isso se ela é nacionalista (recordem-se os cânticos que se continuam a entoar nos templos e nas procissões) e anticomunista, nunca foi antifascista e nem sequer antinazi, apesar da guerra, das perseguições racistas e do Holocausto.

Ninguém põe em causa que Fátima acabou por ser um fenómeno social de tipo religioso e popular, mas poderá sempre questionar-se se a Igreja não foi apoiando, enquadrando e mesmo criando esse fenómeno, desde o início, tomando como modelo Lourdes e dando-lhe a configuração de um lugar de peregrinação (e não de romaria) e de penitência pelos “pecados do Mundo”, salientando o “pecado do ateísmo” e não o pecado do racismo. Como poderia fazê-lo se o próprio Cardeal Patriarca, Manuel Gonçalves Cerejeira, nas suas pastorais, bem como outros membros da Igreja oficial, atacaram frontalmente o comunismo, mas justificaram, em alguns textos, a própria Inquisição, como instituição unificadora da religião em Portugal?

Por isso também é indubitável que Fátima é, acima de tudo, um fenómeno político, de oposição da Igreja ao laicismo e ao anticlericalismo republicanos (recorde-se, porém, que não há anticlericalismo sem haver clericalismo) e, depois, ao comunismo e em defesa do citado nacionalismo. A Igreja, que sempre desejou (como na Itália fascista) um acordo com o Estado, aceitou a Concordata de 1940. Dava-lhe regalias, como a impossibilidade do divórcio nos casamentos católicos (artigo 24.º), e direitos, alguns injustamente tirados durante a República, como a posse dos templos, mas também concordou que os bispos só fossem nomeados se o Estado não visse razões políticas que o impedissem (artigo 10.º).

Do mesmo modo, Igreja e Estado acabaram por naturalmente defender ou por aceitar as causas da beatificação e da santificação dos videntes Francisco e Jacinta, mesmo que à custa da própria ciência médica, dado que os “milagres” apontados para as justificar foram sempre mais objectos da “fé” (devido ao exame feito, em encomenda, por médicos católicos, num caso, pelo menos, contra o diagnóstico de clínicos hospitalares) do que da ciência. A Igreja promoveu essa “santificação”, mas, o Estado esteve presente nas duas situações, quando os papas aqui as vieram anunciar. E o 25 de Abril, que consagrou, ou devia ter consagrado, o princípio da secularização da sociedade civil e da separação do Estado das Igrejas (embora pela letra da lei só prescrevesse — o que é formal e talvez substancialmente diferente — a “separação das Igrejas do Estado”), já sucedeu há mais de 40 anos!

É verdade que teólogos e membros da hierarquia católica têm tentado actualizar a mensagem de Fátima, cujo santuário mariano jamais poderia ser posto em causa (nem isso alguém pretende, como princípio, embora o possa considerar arrumado no âmbito das crenças católicas, de variado tipo, e criticar o seu tom de exploração da crendice popular). Não pretende por razões eclesiásticas, religiosas, sociais e políticas. Foi assim que, continuando afirmações já apresentadas anteriormente pelo próprio Ratzinger (Bento XVI) e tomando como exemplo declarações do papa Francisco, se afirmou que as chamadas “aparições de Fátima” eram afinal “visões” ou, talvez melhor, experiências religiosas ou místicas e que Fátima deveria ser mais um lugar de alegria e de defesa da paz e da caridade (ou da fraternidade) do que da penitência, tese que afinal se deveria sustentar nas Escrituras e que Erasmo fixou no velho princípio “Monachatus non est pietas”, ou seja, o monacato ou o isolamento monástico praticado, de oração e penitência, no cristianismo de então (tal como sucedeu recentemente com a irmã Lúcia) não significa, por si só, “piedade”, amor ao próximo, afirmado e vivido. E como essa caridade poderia ser vivida pelos católicos e por todos os homens de boa vontade (como o é em muitos casos) neste tempo conturbado, onde grassa o fundamentalismo religioso, as mortes de inocentes, as perseguições e as fugas desesperadas!

Teólogos e padres de variada formação discutiram a mensagem, desde o Padre Mário de Oliveira, injustamente esquecido devido à sua categórica negação de Fátima, ao meu colega Doutor Anselmo Borges, ao dominicano Frei Bento Domingues, ou até a D. Carlos Azevedo, cuja formação de historiador lhe dá também uma noção da objectividade. Foi talvez o que de mais interessante fez a Igreja, mais ou menos oficial ou marginal. Mas o certo é que continuou a ideia do sacrifício, o pagamento de promessas, a ideia de que Fátima seria sempre (mesmo que não se diga ou até se diga o contrário) um “dogma de fé”, justificado pela santificação com os respectivos milagres (num futuro próximo será, obviamente, Lúcia a ser promovida a Santa Lúcia, o que é mais do que lógico, dado que foi ela com a Igreja oficial a promover o fenómeno de Fátima). E tudo isso com a presença do Estado que vê em mais dois santos portugueses um “sucesso nacional”.

Resta a pergunta, que foi a razão deste artigo: Será que Fátima pode ser um objecto da História? Será que a historiografia de Fátima pode vir a progredir? A História, como ciência (nunca completamente imparcial, mas não confessional, como toda a Ciência), feita com base em documentos, dificilmente poderá progredir. Porquê? Porque por mais que tenha feito o Santuário de Fátima na recolha e divulgação de documentos (a que chamou Documentação crítica de Fátima), e por mais que acreditemos que divulga tudo o que pode, o certo é que só se poderá evoluir no aprofundamento do objecto desde que se dêem a conhecer algumas fontes, como o epistolário oficial e particular do Cardeal Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira ou a correspondência e o arquivo integral do “quarto mensageiro” (como já lhe chamaram) Nunes Formigão. Sem isso, apenas poderemos completar os estudos de documentos publicados ao longo do tempo, que obviamente nos mostram que se acreditava (ou não) nos “milagres” de Fátima, como se acredita nos “milagres” ou na intercessão de Santo António, ou da santa feita pelo povo Maria Adelaide, em Arcozelo, ou da Alexandrina de Balazar, que Cerejeira, já em período de decadência e fora do patriarcado, assegurava que, por seu intermédio, se conseguira salvar Salazar do atentado de 4 de Julho de 1937 (como o bispo de Coimbra também afirmava, mas por intercessão da Rainha Santa) ou conseguira a difícil decisão de o Estado fundar tardiamente a Universidade Católica em 1971 (Mensageiro de Bragança, 7 de Dezembro de 1973). São afinal ainda possíveis estudos de história religiosa, que supõem uma análise ideológica, política ou psicológica, como o são de análise técnica e formal de documentos ou de sociologia ou de antropologia religiosas. Pouco mais.

E, felizmente, agora podem realizar-se em liberdade, ao contrário do que sucedeu no Estado Novo. Recordemos que o Professor Sílvio Lima foi demitido em 1935 sobretudo por ter criticado a obra de Cerejeira, A Igreja e o pensamento contemporâneo (1924), ainda nessa altura somente padre e professor de História da Faculdade de Letras de Coimbra, que propunha como tese a recristianização dos intelectuais, e por ter escrito como dissertação para as provas para professor extraordinário da mesma Faculdade a obra, ainda publicada pela Imprensa da Universidade (logo extinta por Salazar) e de imediato censurada, O Amor Místico. Noção e valor de uma experiência religiosa (1934), que pretendia dar uma explicação psicológica das experiências místicas. Algo de idêntico sucedeu mais tarde  com padres que visaram o aggiornamento da Igreja, como — só para citar um caso significativo — aconteceu com a exoneração compulsiva (embora efémera, em resultado de um recurso) de Joaquim Ferreira Gomes como professor também da Faculdade de Letras de Coimbra, porque havia escrito o livro “revolucionário” O Padre num mundo em transformação (1968).

* Historiador, catedrático jubilado da Universidade de Coimbra a quem agradeço a gentileza de me autorizar a publicação.

16 de Junho, 2017 Carlos Esperança

O testemunho de um ateu respeitado

Richard Dawkins:

“O islão é a religião mais malvada do mundo”


“O islão é a religião mais malvada do mundo”

O famoso biólogo evolucionista Richard Dawkins, uma das principais vozes do ateísmo no mundo, deu algumas declarações surpreendentes durante o Cheltenham Science Festival, no Reino Unido, esta semana.

Segundo ele, “É tentador dizer que todas as religiões são ruins, e eu digo que todas as religiões são ruins, mas é uma tentação pior dizer que todas as religiões são igualmente ruins por que elas não são”.

O autor de “Deus: um delírio”, constatou: “Se você olhar para o impacto real que diferentes religiões tiveram no mundo, é bastante evidente que, atualmente, a religião mais cruel do mundo deve ser o Islão”.

15 de Junho, 2017 Carlos Esperança

O feriado do Corpo de Deus

O exótico feriado traz-me à memória os ensinamentos das catequistas da minha infância.

«Deus está em toda a parte».

A deformidade do corpo deve acompanhar o delírio da sua representação antropomórfica. Ainda que ocupe só o Planeta que habitamos, não se pode esperar de tal corpo menores malformações do que as que sofre a Terra.

Pretendem alguns celebrar o mistério da Eucaristia, o sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo, um processo alquímico que nas mãos de um consagrado clérigo transforma uma rodela de pão ázimo em corpo e sangue do Deus-filho, transformação que só crentes radicais conseguem notar.

A Igreja católica, que se pela por milagres, mistérios e comemorações, em vez de celebrar o corpo de Deus de uma só vez, podia festejá-lo em peças, ao osso, ao músculo, ao nervo, à víscera ou ao órgão.

Bastava fazer a Deus o que faz à mãe da estrela da companhia, JC. O sagrado coração, a ascensão, a assunção, o parto e as viagens de burro são objeto de comemorações.

Há poucas coisas tão estúpidas como as religiões.

14 de Junho, 2017 Carlos Esperança

Pois…

10 de Junho, 2017 Carlos Esperança

De um dos meus autores preferidos

Salman Rushdie denuncia a “cegueira estúpida” do Ocidente face ao jihadismo

BRIAN SNYDER / REUTERS

“É preciso acabar com a cegueira estúpida” do Ocidente face ao jihadismo que consiste em dizer que “isso nada tem a ver com o Islão”. Mas tem, garante o escritor Salman Rushdie. “Há 50 anos que o Islão se radicalizou”, explica numa entrevista publicada no semanário francês l’Obs.

O escritor britânico de origem indiana vive ainda sob a ameaça de uma fatwa lançada em 1989. Preocupado com o avanço das forças obscurantistas, lança um grito de alarme ao Ocidente: “Parem de recusar ver a realidade das origens do jihadismo”.

“Estou em profundo desacordo com as pessoas de esquerda que tentam tudo para dissociar o fundamentalismo do Islão”, refere o autor de “Os Versículos Satânicos”, o livro de 1988 que provocou grande polémica no mundo muçulmano e lhe valeu uma condenação à morte – o decreto religioso emitido em 1989 pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini, que acusa o escritor e todos os envolvidos na publicação e divulgação do livro de blasfémia e apostasia.

“Há 50 anos que o Islão se radicalizou”, afirma. “Claro que há uma tradição do Islão esclarecido. Mas hoje em dia não é esse que está no poder”, acrescenta na entrevista ao L’Obs (antigo Nouvel Observateur).

“Do lado xiita, houve o Ayatollah Khomeini e a sua Revolução Islâmica. Do lado sunita, há a Arábia Saudita que utilizou os seus imensos recursos para financiar a difusão desse fanatismo que é o wahabismo. Mas esta evolução histórica teve lugar no seio do islão e não no exterior”, explica o escritor.

“Quando os elementos do Daesh se fazem explodir eles dizem ‘Allahou Akbar’, então, como se pode dizer que isso não tem nada a ver com o Islão?”, questiona.

Rushdie diz compreender o receio da “estigmatização do Islão” mas, “para evitar essa estigmatização, é bem mais eficaz reconhecer a natureza do problema para o tratar”.

O autor premiado com o Booker Prize com “Os filhos da meia-noite” constata com “pavor” que “Marine Le Pen analisa o islamismo com mais justeza que a esquerda”.

“É muito inquietante ver que a extrema-direita é capaz de perceber a ameaça de forma mais clara que a esquerda”, afirma.

“O pressuposto da esquerda é o de que o mundo ocidental é mau. Portanto, tudo é analisado a partir deste ponto de vista”, lamenta.